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Globo sempre me respeitou, até me emprestou dinheiro, diz José de Abreu

O ator José de Abreu, que acaba de encerrar uma relação de 40 anos com a Globo e está vivendo na Nova Zelândia - João Miguel Júnior/Globo
O ator José de Abreu, que acaba de encerrar uma relação de 40 anos com a Globo e está vivendo na Nova Zelândia Imagem: João Miguel Júnior/Globo
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

05/06/2020 05h02

Após 40 anos, o ator José de Abreu vai encerrar o seu vínculo profissional com a Globo no final de junho. A notícia foi comunicada de forma inusitada, durante uma "live" com o ex-presidente Lula na noite de quarta-feira (03). O ator disse que o distrato ocorreu de "uma maneira extremamente boa para os dois lados".

Morando atualmente na Nova Zelândia, Abreu disse que tem planos de seguir uma carreira internacional. Nos últimos anos, ele já vinha alternando períodos de vida no exterior entre uma e outra novela na Globo.

Nesta entrevista ao UOL, o ator explica melhor como foi o fim da relação com a Globo, fala sobre como a militância política atrapalhou a sua vida e conta quais são os seus planos atuais e futuros, o que inclui duas novelas na própria emissora carioca.

Abreu também revela alguns detalhes sobre as ameaças de morte que sofreu. Em abril de 2016, após defender a então presidente Dilma durante uma participação no "Domingão do Faustão", a Globo escalou seguranças para acompanhá-lo. "E quando eu voltava pro hotel tinha um segurança na portaria do hotel e outro na porta do meu quarto".

Você sempre conseguiu manter bem separado a militância política do trabalho na Globo. Mas, nos últimos anos, tenho a impressão que ficou mais difícil. A sua saída do Brasil está ligada a isso, não?
Não exatamente. Saí em 2014, ainda antes do episódio da "cuspida". Mas nada a ver com a Globo, que sempre respeitou minha posição política, inclusive me emprestou dinheiro para eu comprar meu apartamento na França. Saí pela necessidade interior de morar onde não me conhecessem. Queria ter uma vida "incógnita", depois de tantos anos de autógrafos e selfies. A perseguição política começou na campanha (presidencial) do José Serra, em 2010. Depois das duas últimas novelas das nove, vi que ficou impossível viver aí. Muita ameaça de morte, provocações na rua.

Você considera que a militância atrapalhou a carreira nos últimos anos?
Sim, principalmente no cinema. Fui tirado de um filme onde eu era o criador da ideia original! Sacanagem de uma mulher que era minha amiga íntima (já brigou com muita gente no cinema). Não guardo ressentimento, não creio que ela esteja bem depois de certas coisas que aconteceram na vida dela. Sabe Lei do Retorno? Há também censura econômica. Patrocinadores preferem atores anódinos. E os patrocinadores estatais me bloquearam desde o golpe na Dilma.

Vi que você tratou com bastante naturalidade o distrato com a Globo. Não ficou nenhuma mágoa?
Não, pelo contrário. Mais uma vez me trataram muito bem, estou muito satisfeito. Tenho uma relação muito boa com a direção da casa. Sempre tive, já fui diretor, produtor, assessor do Daniel (Filho), fiz muita coisa lá. E já tenho duas novelas para fazer lá na frente. Mas não posso adiantar.

José de Abreu no Faustão - Reprodução - Reprodução
José de Abreu no "Domingão do Faustão"
Imagem: Reprodução
A classe artística, de um modo geral, é pouco engajada politicamente no Brasil. Por que você acha que isso ocorre?
Muitos vêm me dizer que tem medo de prejudicar suas carreiras. E prejudica mesmo. Não na Globo, que não se mete, mas em teatro e cinema pode prejudicar, sim. Outros são alienados mesmo. Mas, olha, no dia que fui ao Faustão defender a Dilma e denunciar o golpe (durante o 'Arquivo Confidencial', em abril de 2016) recebi ligações de colegas da Globo que não podia imaginar que eram "do nosso lado". Fiquei muito impressionado. Atores, diretores, produtores. Dos mais altos escalões.

Depois do Faustão, invadiram os celulares meus e de meus familiares, inclusive de um filho menor. Foi uma loucura, eram milhares de whatsapps, mensagens SMS, ligações, todos ameaçando de morte. Sei que houve ligações para a Globo também, graves, tanto que colocaram seguranças para me proteger (muitos) desde a saída da Globo SP até eu chegar em casa, no Rio, dois dias depois. E quando eu voltava para o hotel tinha um segurança na portaria do hotel e outro na porta do meu quarto. Nada agradável.

Você está com 74 anos. É natural que haja menos papéis e oportunidades de trabalho nesta idade. O que você gostaria ainda de fazer como ator?
Eu nunca fui ator de sonhar com papéis, sabe? Sempre deixei me levar pelos convites, a não ser quando produzia teatro eventualmente. No máximo um Shakespeare, tem tantos personagens bons! Em Hollywood (fiquei em Los Angeles entre "Segundo Sol" e "A Dona do Pedaço") me disseram que é raro um ator da minha idade e carreira tão grande ser praticamente desconhecido. Acham bom lançar uma cara "nova" velha. Mas as coisas lá andam num ritmo diferente. Agora com a pandemia então... Ah, outra coisa: lá meu sotaque é de italiano (!!!), o que facilita e muito.

Você disse pensar em carreira internacional. Tem algo em vista?
Algumas coisas, mas tudo dependia do fim do vínculo com a Globo, eu sou muito consciente das minhas responsabilidades profissionais. Em Portugal tenho um convite, mas nem quis conversar. Só depois de julho que posso assinar qualquer outra coisa. Tem um filme que está quase fechado, mas tudo pra depois de julho, aqui na Nova Zelândia.

Mauricio Stycer