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Ricardo Feltrin


Fim da TV Escola pode prejudicar surdos em todo o país; leia nota

Programação da TV Escola dá atenção especial ao ensino por meio da linguagem de sinais, para surdos - Reprodução.
Programação da TV Escola dá atenção especial ao ensino por meio da linguagem de sinais, para surdos Imagem: Reprodução.
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

20/12/2019 07h47

Resumo da notícia

  • TV Escola existe desde 96 e é uma ilha de excelência
  • Olavetes, no entanto, manobram para extingui-la
  • TV é a que mais incentiva o uso da linguagem de sinais
  • Fim da emissora portanto pode prejudicar surdos

Expulsos do Ministério da Educação na semana passada, funcionários da TV Escola realizaram uma assembleia e emitiram uma nota de "apreensão" sobre os rumos do canal, provavelmente o melhor canal público em conteúdo e baixo custo.

A TV Escola é gerida pela Associação de Comunicação Roquette Pinto (Acerp) desde sua fundação, em 1996.

Diferentemente da TV Brasil, ao passar para o controle do MEC a TV Escola conseguiu escapar do controle e da ideologia chapa-branca da EBC ainda no governo Lula.

Nos últimos anos a TV Escola se tornou a maior referência em meios de comunicação em veiculação de conteúdo em closed caption, audiodescrição e tradução em Libras.

Dados do IBGE de 2010 apontavam que o Brasil tem cerca de 10 milhões de pessoas surdas com com graves problemas auditivos.

A primeira-dama do país, Michelle Bolsonaro, é uma das grandes incentivadoras do ensino e comunicação por meio de Libras. Foi a única primeira-dama brasileira a se comunicar nessa linguagem publicamente, durante a posse do marido, Jair Bolsonaro.

Algumas de suas produções, como "Hora do Enem" se tornaram paradigmas que vêm sendo reproduzidos premiados e copiados mundo afora.

Preocupados com a possibilidade de não renovação do contrato com o MEC, e com a possível demissão de 367 pessoas, os funcionários e a Acerp emitiram uma carta aberta à população, na qual manifestam toda sua preocupação.

Leia a seguir a íntegra da nota:

"Nós, funcionários e funcionárias da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), reunidos em assembleia, vimos a público manifestar apreensão pelas últimas
notícias que, desde sexta-feira, 13/12, dão conta da não renovação, pelo MEC, do contrato
de gestão da TV Escola.

Desde que esses fatos se tornaram públicos, 367 famílias vivem momentos de angústia e de medo.

A Roquette Pinto é a instituição responsável pela produção e operação da TV Escola desde o
lançamento do canal, em 1996.

Há décadas a Acerp carrega o legado do educador Edgard Roquette-Pinto, e tem um histórico compromisso com a democratização do acesso ao conhecimento e a defesa da educação pública do país.

Um compromisso que também é de todos e todas nós.

Ao longo de mais de 20 anos de existência, a TV Escola sempre se pautou pela pluralidade
de ideias e pela qualidade de seus programas, muitos premiados no exterior.

A atenção às necessidades de nosso público também fez com que o canal investisse em acessibilidade: com recursos de closed caption (legenda oculta), audiodescrição e tradução em Libras.

Tudo isso é fruto da expertise desenvolvida pela equipe da Associação de Comunicação
Educativa Roquette Pinto.

Não medimos o sucesso de nossa programação por meio de índices de audiência. Esse
nunca foi um parâmetro.

O que nos orienta é a certeza da utilização de nossos programas em salas de aula; em cursos de formação de professores e em outras iniciativas voltadas à capacitação de estudantes e profissionais de educação.

Estamos alinhados em defesa de uma educação pública de qualidade, que seja laica,
inclusiva e democrática.

Reafirmamos nosso total respeito aos educadores, educadoras, alunos e alunas deste país,
que há mais de 20 anos acompanham e contam com a nossa programação para divulgar as
inúmeras experiências bem-sucedidas em curso nas escolas públicas brasileiras; bem como
na divulgação e nas discussões acerca das políticas públicas de educação implementadas no
país.

Entendemos que só o investimento em educação pode garantir que o Brasil cresça e que
nossa sociedade se torne mais justa.

Nesse sentido, a TV Escola é uma contribuição fundamental, sobretudo em municípios que não possuem recursos ou estrutura para promover iniciativas de formação continuada de professores.

Também expressamos nossa preocupação com o futuro da TV INES, a única emissora voltada para a comunidade surda do país - com programação em Libras, a Língua Brasileira
de Sinais.

Não há garantias de que o contrato de prestação de serviço para gestão da TV INES se manterá sem o suporte da TV Escola, uma vez que os dois canais compartilham a
estrutura física, equipamentos e equipes, em diversas áreas.

A Cinemateca Brasileira, também gerida pela Acerp, é outro patrimônio brasileiro
Ameaçado.

Lá, desenvolvemos um precioso trabalho de recuperação e digitalização de um
rico acervo da cinematografia brasileira.

A não renovação do contrato de gestão da TV Escola com a Acerp compromete todas essas
atividades.

Atinge frontalmente nosso compromisso histórico de contribuir para a melhoria da qualidade da educação nas escolas do país.

Atinge igualmente a possibilidade de construirmos uma sociedade na qual surdos e ouvintes tenham acesso à informação e à cultura.

E atinge, também, a preservação da memória do cinema e da cultura brasileiros. Essa luta não é apenas nossa. Todo o Brasil deveria se preocupar quando instituições como essa que representamos se veem ameaçadas.

Funcionários da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto, em assembleia."

Ricardo Feltrin no Twitter, Facebook e site Ooops

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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