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TV Escola propõe reduzir salários para enfrentar crise e pandemia

Logotipo da TV Escola - Reprodução.
Logotipo da TV Escola Imagem: Reprodução.
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

02/04/2020 00h36

Resumo da notícia

  • TV Escola enfrenta sua pior crise após rescisão de contrato com MEC
  • Presente em todo o país, ela está bancando os próprios custos
  • Como custo é altíssimo, a emissora negocia parcerias com Estados e cidades
  • Proposta da direção reduz salários até 25%, com promessa de devolução futura

Com o fim do contrato com o governo federal, bancando os custos do próprio bolso e ainda enfrentando a pandemia de coronavírus, a TV Escola está propondo um corte temporário de salários em seus funcionários.

Pela proposta seu presidente, Francisco Câmpera, obtida por esta coluna, a redução iria de 15% a 25% dos salários, dependendo do montante (veja íntegra da mensagem enviada esta semana para o quadro da TV).

Sem estabelecer um prazo, o presidente diz que o valor seria devolvido assim que a situação do país —e da emissora— melhorar.

A emissora confirmou a autenticidade da mensagem.

A coluna apurou que a proposta não nada bem recebida pela equipe. Mas, teme-se que não haja outra escolha. Pior seria o seu fechamento.

A TV Escola é gerida pela Fundação Roquette Pinto, entidade sem fins lucrativos, e recentemente teve o contrato com o MEC (Ministério da Educação) rescindido.

Pelo contrato ela receberia cerca de R$ 42 milhões este ano, por um contrato de cinco anos (e não R$ 500 milhões como Jair Bolsonaro e seu ministro Abraham Weintraub seguem divulgando mentirosamente).

Sem esse dinheiro, está tendo de bancar custos de produção e, principalmente, a caríssima transmissão por satélite, do próprio cofre. Por causa da rescisão ela também promoveu uma série de demissões e extinguiu programas.

Presente em todo o país

A TV Escola foi fundada em 1996. É uma emissora UHF aberta e está presente em todo o território nacional, bem como em todas as operadoras.

Ela também cuida de outra emissora 100% dedicada a pessoas surdas, a TV Ines.

Sem verba federal a situação ficou grave, mas ainda há esperança —e justamente devido à pandemia:

a emissora vem sendo procurada por Estados e municípios interessados em retransmitir sua programação por inteiro, ou em parte.

O interesse se deve ao fato de que, devido ao coronavírus, as escolas foram fechadas, e a TV Escola tem não apenas know-how no ensino a distância como um inventário de cerca de 500 horas-aula de praticamente todas as disciplinas do ensino médio.

Por outro lado, boa parte dos secretários estaduais e municipais de Educação em "negociação" quer receber a programação e o conteúdo gratuitamente.

Já a TV, embora não tenha fins lucrativos, tem um alto custo.

Como esta coluna já frisou no passado, sua programação é provavelmente a melhor, mais educativa e útil da TV aberta brasileira.

Veja a íntegra da nota enviada aos funcionários:

"Caros colaboradores;

É de conhecimento de todos o período difícil por qual estamos passando. A descontinuidade do contrato de gestão por parte do MEC, feita de forma abrupta a 17 dias antes do seu final, cessou o nosso até então principal aporte financeiro, entre todos os projetos.

Para enfrentar a situação e mantermos a TV Escola no ar, foi necessário reestruturar toda a operação. A organização, no entanto, não parou. E desde então estamos contando apenas com recursos próprios.

De janeiro a março a Roquette Pinto bancou também os custos de todos os projetos contemplados pelos contratos de gestão e de administração, o que gerou uma descapitalização temporária.

Estamos em processo contínuo de solução destas questões emergenciais e com excelentes perspectivas, já em fase de contratação, de novos projetos.

Vale lembrar, no entanto, que os trâmites burocráticos estatais estão quase que paralisados, visto que grande parte das atividades foram desativadas eventualmente por causa das medidas contra a pandemia do Coronavírus.

Devido a esse cenário, houve um impacto temporário em nosso fluxo de caixa e os salários referentes ao mês de março serão efetuados com parcelamentos percentuais.

Esta é uma situação passageira que abrange parte dos colaboradores da Roquette Pinto e da TV Escola.

Colaboradores que recebem até R$ 3.000,00 líquidos não serão impactados nos seus salários. O valor restante dos salários dos colaboradores que tiverem parcelamento será quitado posteriormente, com data ainda a ser confirmada, com as devidas correções.

Conto com a compreensão de todos. Estamos lutando sem parar buscando soluções concretas.

Os resultados já começaram a aparecer, mas a Pandemia do coronavírus atrasou a concretização dos novos contratos. Estamos trabalhando continuadamente no sentido de contornar essa situação o mais rápido possível.

Assim que forem fechados novos contratos e feitos os aportes financeiros devidos à Roquette Pinto, a situação se normaliza.

Faço um apelo a todos para que nos apoiem neste momento difícil, vamos lutar juntos e dar a volta por cima.

Lembro que a TV Escola é a única emissora com alcance nacional com 500 horas de vídeo aulas e material educativo para todas as séries, portanto, somos a única opção de ensino a distância para milhares de estudando do nosso país.

Nossa instituição tem quase um século, e seguimos a missão de Edgar Roquette Pinto com a Educação, levando o ensino aos quatro cantos do nosso amado Brasil. Vamos superar mais este obstáculo e sobreviveremos juntos a mais esta crise.

O escalonamento será feito da seguinte forma:


Proposta de pagamento parcial com base no salário líquido:

Grupo A - Acima de R$ 9.000
Grupo B - Acima de R$ 6.000
Grupo C - Acima de R$ 3.000
Grupo D - Até R$ 3.000

O grupo A receberá 75% do salário
O grupo B receberá 80% do salário
O grupo C receberá 85% do salário
O grupo D receberá 100% do salário"

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