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Mateus Solano relembra beijo gay e lamenta: "Demos muitos passos atrás"

Mateus Solano participa do "Conversa com Bial" e relembra a torcida do público para a união de Félix e Nico em "Amor à Vida" - Reprodução/Globo
Mateus Solano participa do "Conversa com Bial" e relembra a torcida do público para a união de Félix e Nico em "Amor à Vida" Imagem: Reprodução/Globo

Jonathan Pereira

Colaboração para o UOL

15/05/2019 07h37

Mateus Solano falou sobre a importância do beijo que deu em Thiago Fragoso no último capítulo da novela "Amor à Vida". Em participação no "Conversa com Bial", o ator recorda que o público torcia para ver a cena que selava o amor de Félix e Nico, personagens que interpretaram na trama de Walcyr Carrasco e que entrou para a história como a primeira novela da Globo a exibir um beijo de amor entre dois homens.

"É a maior realização para mim como profissional, ter gente [dizendo] 'pô, esses dois tem que se beijar'. O mais homofóbico torcendo, 'como esses dois não vão se beijar? Como é possível uma história de amor tão bonita e não poder haver um beijo?'. Foi uma luta que a gente ganhou", comemora.

Ele recebeu o retorno do público após a cena ter ido ao ar, no início de 2014. "Recebi algumas cartas, depoimentos que recebi e recebo até hoje. Algumas pessoas vem me abraçar e dizem 'obrigado'. Não precisa nem falar que eu já sei o que é", orgulha-se, lembrando a Pedro Bial que não foi um caminho fácil vencer o preconceito.

"Presta atenção, para chegar nesse beijo foram 221 capítulos de um personagem que primeiro foi odiado e amado ao mesmo tempo, que passou por uma série de coisas. Foi muito trabalho e foi o público, isso foi uma vitória do público. Eu sempre dizia quando me perguntavam, 'vai ter beijo gay quando for interessante para a televisão. A televisão quer o máximo de gente assistindo'. São as pessoas que precisam pedir esse tipo de coisa", argumenta.

O ator assume que perdeu o preconceito com a TV. "Eu, como muitos atores de teatro, tinha muitas reservas com televisão. Mordi minha língua. O que eu achava que só conseguiria no teatro, mover as pessoas de dentro para fora, consegui com esse personagem numa novela. Foi um grito de gol esse beijo, ecoou, foi muito impressionante".

O apresentador quis saber o que mudou de lá para cá no país. "[Demos] Muitos passos atrás. Temos aí décadas de falta de educação, de falta de ensino básico, que vai criando monstros", lamenta Solano.

Luís Miranda, que atua com Mateus na peça "O Mistério de Irma Vap" e em 2014 interpretou a transexual Dorothy Benson na novela "Geração Brasil", avalia o cenário da época. "A gente caminhava para uma mudança muito sistemática no Brasil, as pessoas estavam se assumindo mais. A ideia de discutir esses assuntos era muito forte, ainda havia muita criminalidade. Era extremamente importante que essas causas ganhassem visibilidade".

E o que mudou desde então? "Teve uma transformação política muito severa, a gente está vivendo um momento de extrema saída do armário dessas pessoas que foram conclamadas a se manifestar sobre tudo que era progressista. Tem um avanço forte religioso, como se diz no Islã, fundamentalista", acredita.

"Fundamentalistas radicais colocando questionamentos muito fortes sobre a liberdade sexual dos outros. Os jovens começaram a se posicionar e a sociedade disse assim: 'basta, já estão demais. A Parada Gay cresceu muito'. E outra coisa: nas redes sociais, de uma maneira geral, o indivíduo sem cara não agride só na rua, ele vai fomentando em seus posts esse ódio que vai crescendo", continua.

Miranda diz que os dois não usam o espetáculo como trampolim para falar de política. "No momento que estamos vivendo em que questionam se a Lei Rouanet foi feita para a gente roubar dinheiro do povo, estamos recolocando para o povo a importância que temos como artistas. Nós somos sim importantes para formarmos posições, pensamentos e levarmos o país a refletir sobre seu comportamento".