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Atriz que faz executiva gay em nova novela das 19h se inspirou em Marielle

Shirley Cruz será Gláucia em Bom Sucesso, próxima trama das 19h - João Cotta/Globo
Shirley Cruz será Gláucia em Bom Sucesso, próxima trama das 19h Imagem: João Cotta/Globo

Carolina Farias

Do UOL, no Rio

05/07/2019 04h00

Em Bom Sucesso, novela que substituirá Verão 90, Gláucia será uma executiva responsável pelas finanças da editora Prado Monteiro, um dos principais núcleos da trama. A personagem é uma mulher negra e lésbica, o que fez sua intérprete, a atriz carioca Shiley Cruz, ter dificuldade de encontrar referências com esse perfil.

"Fiquei pensando, procurando referências. É super difícil achar uma mulher executiva, rica, bem-sucedida, lésbica. Deve existir, mas não achei. Quando pensei nessa mulher poderosa, firme, ao mesmo tempo charmosa, feminina, inteligente, pensei muito em Marielle Franco. Espero fazer da melhor forma porque é difícil", diz a atriz de 43 anos nos bastidores da gravação da trama, prevista para estrear no próximo dia 29.

A parlamentar, cujo assassinato junto com seu motorista Anderson Gomes completou um ano em março, era negra, lésbica e criada em uma comunidade pobre da cidade. O motivo da morte, que repercutiu no Brasil e várias partes do mundo, e seus mandantes ainda são desconhecidos.

Outra preocupação do texto da novela e também da atriz foi não estereotipar Gláucia. Segundo Shirley, ela ainda não sabe se a personagem terá um envolvimento amoroso.

"Quero que tenha. É um desejo e uma preocupação também. Não tem como a gente deixar de ver que é uma mulher negra que está fazendo uma personagem bem-sucedida. Há uma preocupação em não estereotipar. Então ela é charmosa, sensual, não 'coça o saco'."

Durante os workshops de preparação de elenco, Shirley disse que surgiu para ela um questionamento: "De onde vem a Gláucia?". Para a atriz, a personagem também pode ter um histórico que vai além do que se estereotipa para mulheres negras nessa posição na sociedade.

"É uma outra questão: se uma mulher negra bem-sucedida ascendeu. Não acho que ela veio da pobreza. Na questão de ser lésbica ela é muito segura e tranquila. Imagino que uma mulher segura, que não se esconde, venha de uma família de amor. Eu vim de uma família classe média, nunca estudei em colégio público, as pessoas não enxergam esse lugar. Pensam: 'Ah, veio de um projeto social'", observa.

Shirley começou sua carreira de atriz no filme "Cidade de Deus", de 2001, e de lá até hoje são dezenas de papéis em curtas, séries e longas como A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Karim Aïnouz, vencedor da mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes deste ano.

"É a minha primeira novela com oportunidade digna, participações já fiz muitas. Mas como artista negra não posso reclamar, faço muito cinema. Chega uma hora que novela é importante por vários motivos. Um ano de contrato, ufa, durmo tranquila", brinca Shirley, que fala sério ao explicar como é representativo estar na televisão.

"Quero chegar um dia em uma entrevista e não falar: 'eu, como mulher negra', mas sim como mulher. Uma personagem em uma novela, com o alcance e o poder que tem, não sei se muda isso, mas contribui. Quando estou em uma tela penso: 'aquela menina pretinha lá do Complexo do Alemão [área de favelas na zona norte do Rio] quando me vir vai pensar: 'Porra, tem uma possibilidade aí'. Abrir esse portal para meninas negras é o que me interessa."

Shirley Cruz já foi repórter do SBT Brasil - Reprodução/YouTube
Shirley Cruz já foi repórter do SBT Brasil
Imagem: Reprodução/YouTube
Repórter no SBT

Estar na televisão e em rede nacional não é uma novidade na vida de Shirley Cruz. Os pais pediram que ela estudasse algo que "desse uma profissão" além da dramaturgia e, assim, ela foi parar no jornalismo. A atriz, que chegou a fazer parte da equipe de repórteres do SBT Brasil quando o jornal era comandado por Ana Paula Padrão, entre 2005 e 2006, diz atuar na área, eventualmente, até hoje.

"Recentemente, eu e meu marido fizemos um trabalho para um jornal da Noruega. O Brasil tem sido palco de grandes notícias horrorosas e todo mundo está interessado", conta ela, que também revela que foi pelo jornalismo que conheceu mais sobre a trajetória de Marielle.

"Conheci a esposa dela [Monica Benício]. Não a conheci pessoalmente, então busquei uma energia na figura dela, vi vídeos. O que tem mais a ver é a força. A presença de quando abre a boca e é taxativa. A Gláucia é assim."