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Fernanda Torres é pessimista sobre futuro do Brasil: "Não vejo horizonte"

Fernanda Torres é Maria Teresa Bulhosa na série Filhos da Pátria - Paulo Belote/Globo
Fernanda Torres é Maria Teresa Bulhosa na série Filhos da Pátria Imagem: Paulo Belote/Globo

Marcela Ribeiro

Do UOL, no Rio

12/08/2019 04h00

"Vivi 50 anos para olhar e falar: 'Caramba, é o mesmo assunto da minha infância!". É essa análise que Fernanda Torres faz do Brasil atual. A atriz está gravando a segunda temporada de Filhos da Pátria, série criada por Bruno Mazzeo, que dessa vez está um século à frente, em 1930, na passagem da política do café com leite para a Era Vargas.

Maria Teresa, sua personagem, segue deslumbrada pela ascensão social e, dessa vez, segundo ela, vem ainda pior. A família segue com a mesma formação, Geraldo (Alexandre Nero) é casado com Maria Teresa. Eles são pais de Geraldinho (Johnny Massaro) e Catarina (Lara Tremouroux). Cada um a seu modo, eles interagem nessa nova conjuntura política, social e econômica do país.

"A gente deu um pulo no Brasil, onde tudo continua igual. Quem era escrava, vira empregada doméstica, quem era corrupto, continua corrupto. O dono do dinheiro continua dono do dinheiro. A gente vai para a década de 30, quando o exército do Getúlio atravessa o país e ele amarrou o cavalo no obelisco".

Aos 53 anos, Fernanda nasceu em 1965, no segundo ano da ditadura militar e viu a mãe, Fernanda Montenegro ser ameaçada de morte. Assim como na série, ela faz um paralelo do país da sua infância e atualmente no qual enxerga melhorias, mas entende que a história é feita de avanços e retrocessos.

"A gente está vivendo uma era meio apocalíptica no mundo, não tem muito futuro, então não vejo futuro em que isso tudo vai estar resolvido. Nasci na ditadura, vivi a redemocratização, em muitos sentidos vivo numa sociedade mais aberta do que vivi quando era criança. A crise econômica toda do Sarney que vivi, o fechamento do Brasil para o mundo, isso tudo melhorou, é um país mais incluído no mundo", analisa.

"Por outro lado, a democracia também nos provou que não há santos, que o problema estrutural do Brasil, do jogo político econômico do país se organiza muito na nossa raiz, a questão da desigualdade social, que a gente nunca consegue resolver, a violência aumentando por causa da desigualdade, a educação que nunca é resolvida, isso tudo não vejo no futuro próximo nenhum horizonte. A gente não tem saneamento básico em mais da metade do Brasil".

Fernanda evita opinar diretamente sobre o atual presidente Jair Bolsonaro e diz que os temas abordados na série não devem causar polêmicas por associação direta ao governo. "Nós elegemos esse presidente, isso ele tem razão. Muitas forças querem aquilo por alguma razão".

Geraldinho (Johnny Massaro), Maria Teresa (Fernanda Torres), Geraldo (Alexandre Nero) e Catarina (Lara Tremouroux), a família Bulhosa na primeira temporada da série "Filhos da Pátria".  - Estevam Avellar/TV Globo
Geraldinho (Johnny Massaro), Maria Teresa (Fernanda Torres), Geraldo (Alexandre Nero) e Catarina (Lara Tremouroux), a família Bulhosa na primeira temporada da série "Filhos da Pátria".
Imagem: Estevam Avellar/TV Globo

"Maria Teresa é salva porque é uma débil mental"

Um dos méritos da série, para a atriz, é mostrar que o esqueleto da sociedade continua sempre o mesmo. A chegada e a influência do rádio, o impulso da industrialização e a revolução são as novidades que moldam a sociedade da época e marcam a chegada do século XX.

A nova temporada da série, prevista para estrear em outubro na Globo, traz uma narração de problemas sociais antigos que persistem na sociedade brasileira, cheia de humor e temas ainda atuais, que parecem trazer à tona as mesmas questões, apesar do passar de décadas.

"A Lucélia (Jéssica Ellen) é empregada e a Maria Teresa não consegue entender como uma pessoa tem que ter folga, ela acha um absurdo ter que ter horário e, como tudo no Brasil, essas relações se dão pelo afeto. Uma hora ela demite a Lucélia porque ela vira para a Maria e fala: 'Se a senhora não está satisfeita, então eu me demito', aí ela vira e diz: 'Você está se demitindo, então eu é que te demito", conta Fernanda, que admite um certo constrangimento em tratar temas tão fortes com tom de humor.

"Meio que você ri, mas você se reconhece naquele horror", diz a atriz. "A Maria Teresa diz coisas racistas, só que ela é salva porque ela é uma débil mental, então você acaba tendo um sentimento afetuoso porque não é possível uma pessoa ser tão imbecil".

Fernanda analisa que, ainda hoje, existem muitas "Marias Teresas" presentes em nossa sociedade. "Ela é um espírito que habita em muitos lugares, inclusive em nós mesmos. Ela parece a sua tia, a sua mãe, então você tem amor por ela, mas ela é um monstro".

A atriz adianta que nesta temporada sua personagem fica enlouquecida com os militares. "Ela acha os militares lindos, fica sonhando do Geraldo não ser escriturário, ele ser militar, do filho ser militar. Ela entra para uma liga de donas de casa perfeitas, que são as mulheres dos militares".

Em uma das cenas da série que exibe um humor politizado para escancarar o preconceitos e absurdos cometidos pelos personagens, e ainda presentes na nossa sociedade. Maria Teresa vai com um grupo de mulheres de militares fazer uma ação voluntária em uma favela do Rio de Janeiro.

"Hoje a gente filmou um negócio aqui que você fala, 'caramba, será que tem graça? Tem um humor que você fala, que coisa horrível'. Ela vem com as mulheres que fazem caridade no morro e diz: 'nossa, que lugar exótico, tão diferente do Brasil'. Ela mora na Tijuca [bairro da zona norte do Rio] e acha que o Brasil é a casa dela. Tem o negócio de cantar o hino nacional, do patriotismo".

Torres considera a nova temporada ainda mais crítica que a anterior porque mostra a consciência dos personagens. "O Geraldinho vira na mesa e fala: 'Não sei se disse a vocês, mas eu agora sou fascista'. Ele fala isso com orgulho. A Catarina está mais feminista do que ela era, mais mulher moderna. Todo mundo está com a tinta mais carregada".