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De favelas para Amor de Mãe: professora compara tiroteio em escolas à Síria

Marcela Ribeiro

Do UOL, no Rio

06/12/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Camila, personagem de Jéssica Ellen em Amor de Mãe, passou por um tiroteio em escola
  • A cena movimentou redes sociais, chamando a atenção para o problema da violência
  • Ao UOL, professoras comentaram cena e disseram que tiroteios fazem parte da rotina

Camila, personagem de Jéssica Ellen em Amor de Mãe, passou sufoco no seu primeiro dia de aula em uma escola pública do Rio de Janeiro em cena que foi ao ar recentemente na novela da Globo. No meio da aula de História, a professora precisou se abaixar e correr para o pátio com os alunos por conta de uma operação policial nos arredores com intenso tiroteio e barulho de helicóptero.

A novela de Manuela Dias tem se destacado por abordar temas atuais ao mostrar que o vilão, muitas vezes, é a própria realidade. Para professores ouvidos pelo UOL que atuam em áreas consideradas de risco no Rio de Janeiro, infelizmente a cena faz parte do cotidiano a ponto de estudantes serem submetidos a treinamento sobre como agir durante tiroteios. Ainda que corriqueira, a violência é comparada à situação de guerra civil na Síria por uma das professoras.

A exposição à violência causa estresse nos alunos e afeta o aprendizado. Só neste ano, ao menos cinco crianças morreram durante operações policiais em comunidades do Rio —é comum essas ações ocorrerem em horário escolar. Em junho, Letícia Tamirez Ferreira, de 9 anos, e Cristiano Ronaldo Ferreira, de 6, foram baleados no tórax e na mão enquanto estavam a caminho da escola em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Escola colocou placa no telhado: "Não atire"

Fundadora do Projeto Urerê no Complexo da Maré (zona norte do Rio), Yvonne Bezerra é professora de Filosofia, Literatura e História da África e já perdeu as contas de quantas vezes precisou se jogar no chão com seus alunos. A cena exibida na novela da Globo é considerada normal em seu dia a dia.

Já tive no chão trocentas vezes. Ano passado nós tivemos quase cem dias de conflitos, esse ano estamos quase no mesmo número de operações dentro da favela. Eu tenho no teto da minha escola uma placa escrita: 'Escola, não atire'. Estou acostumada. As crianças já sabem dentro da escola, aonde elas têm que ir em caso de tiroteio.

Yvonne Bezerra, fundadora do Projeto Urerê na Maré

"Nós fazemos duas vezes por ano um treinamento. As crianças têm que ir para o corredor e salas internas onde não tenham janelas para fora. É uma coisa enlouquecedora, não dá para entender", explica.

Professora acolhe aluno durante tiroteio nos arredores de escola no Complexo da Maré, no Rio - Arquivo pessoal
Professora acolhe aluno durante tiroteio nos arredores de escola no Complexo da Maré, no Rio
Imagem: Arquivo pessoal

A escola já chegou a ser atingida no teto por tiros disparados do alto de um helicóptero, o que causou pânico generalizado e fez Yvone colocar a placa no telhado.

"Nós que trabalhamos nas comunidades temos a violência diária. Mesmo com a melhor pedagogia do mundo, quando tem operação, você tem que botar as crianças no chão e, no dia seguinte, você tem que montar tudo de novo porque os traumas são muitos. Quando você vê o helicóptero atirando em cima das casas, o que é isso? Parece a Síria", desabafa.

"Você tem no Brasil 23 milhões de crianças, de 6 a 9 anos, que não aprendem nestas comunidades devido a essa violência constante. Isso traumatiza, impede a cognição e daí advém os problemas de aprendizado. Em grande parte, os problemas vêm disso porque aí você tem famílias estressadas, crianças estressadas. As crianças têm convulsões, choram, gritam, é uma coisa horrorosa de ver", relata.

Fundadora do Projeto Urerê no Complexo da Maré, Yvonne Bezerra colocou uma placa no alto da escola pedindo que não atirem - Arquivo pessoal
Fundadora do Projeto Urerê no Complexo da Maré, Yvonne Bezerra colocou uma placa no alto da escola pedindo que não atirem
Imagem: Arquivo pessoal

Para acalmá-las, Yvone e sua equipe tentam dar atenção, colo e carinho aos alunos.

Tiro de helicóptero é a coisa mais absurda que existe. Como vai atirar de cima nas pessoas? Não tem como se proteger. No dia que atiraram na minha escola, foi um caos, os gritos desesperados, aí depois coloquei a placa.

Em razão das constantes operações e troca de tiros, a coordenadora não abriu a escola por 54 dias neste ano. "Se dissessem que tem alguma inteligência por trás disso, mas não. Em algumas dessas operações, as comunidades foram melhoradas? Não, continuam a mesma coisa. Então qual é o motivo disso? É matar? Matar quem? Se cair uma bala na minha placa, vou denunciar à ONU."

Segundo Yvone, é comum educadores desistirem de lecionar em comunidades. "Têm muitos professores que desistem, têm problemas psiquiátricos. Esse é um problema que algum dia vamos ter que resolver. Vamos ter outros tipos de governantes, desarmamentistas e com uma inteligência que não é a que está acontecendo agora", diz ela, que acredita contudo num futuro mais seguro para seus alunos.

"Tenho esperança, lido com vidas, com crianças, não posso perder a esperança, tenho que dar esperança a elas, que um dia vai melhorar. Eles veem a minha luta, isso dá um certo alento."

Professora diz mentir para crianças sobre tiroteios

A professora de educação infantil A.M., que prefere não se identificar, trabalha em uma escola na Mangueira, zona norte do Rio, e também já passou momentos de terror com seus alunos. Ela considerou a cena da novela das nove bem próxima da realidade.

"A cena foi a professora perdida, coitada, porque era o primeiro dia de aula. Foram os alunos que socorreram ela, era uma turma de adolescentes. Na novela, a professora foi socorrida pelos alunos e eu que tenho que socorrer as crianças. No meu caso, trabalho num berçário, com crianças bem pequenas e isso aconteceu entre 9h e 10h da manhã. Elas estavam brincando com janelas abertas e, do nada, os tiros acontecem. Você tem que sair correndo com criança pelo corredor", lembra.

A educadora conta que, apesar da tensão, é preciso manter o equilíbrio emocional para não afetar os alunos.

A pior situação é você ter que acalmar crianças muito pequenas e se acalmar também, como se nada tivesse acontecido porque o trabalho continua. A situação é muito parecida [com a retratada na novela], mas eu tenho crianças pequenas, eu tenho que buscar, elas não conseguem correr para se salvar.

A.M., professora de educação infantil

"Nesse momento você não pensa nem em você, você pensa que tem que salvar essas crianças, correr e botar no corredor e depois tentar acalmá-las, cantar, dançar, sorrir, para que elas acreditem que não foi nada e quando elas te perguntem: 'É tiro?'. 'Não'. Tem que mentir e dizer pra ela que não é nada daquilo, quando na verdade é a realidade dela, o dia a dia dela."

Professora conta ter sido acalmada por aluno

A professora M.P., que também prefere não se identificar, dá aulas de língua estrangeira em uma escola localizada no Rio Comprido, zona norte do Rio. Ela lamenta que operações policiais afetem diretamente os estudantes e atrapalhem o ano letivo.

Nunca tivemos que nos jogar no chão literalmente, mas já, sim, precisamos botar todas as crianças sentadas nos corredores por estar tendo tiroteio no entorno. Um dia as crianças estavam sendo liberadas e precisamos correr atrás delas para que elas voltassem porque começou um tiroteio intenso por perto.

M.P, professora de língua estrangeira

"Isso afeta o aprendizado porque ficamos sem aulas, todo o conteúdo é reposto sempre, nos certificamos disso, mas confesso que tiros são tão comuns nas vidas deles, que eles não parecem traumatizados", completa a professora.

Jéssica Ellen interpreta a professora de História Camila em Amor de Mãe - João Cotta/Globo
Jéssica Ellen interpreta a professora de História Camila em Amor de Mãe
Imagem: João Cotta/Globo

Os alunos adolescentes acabam "se acostumando" com a rotina violenta e são eles, em alguns momentos, que acalmam os professores. "Muitas vezes, inclusive, quando nós, professores, nos mostramos preocupados com a situação, os próprios alunos minimizam nossa preocupação e dizem que é normal."

Desistir é algo que já passou pela cabeça dela, mas a esperança de mudar por meio da educação fala mais alto, assim como acontece com a professora de Amor de Mãe.

"Já pensei [em desistir]. Na verdade, não por conta do risco, porque não acho correto eu me botar nesse lugar de privilégio, as crianças não têm essa opção. Já pensei em desistir pelo fato de a prefeitura não permitir, e se gabar desse fato, que se fechem escolas em dias de operação", diz ela.

"As operações por si só já são irresponsáveis, independentemente do horário, afinal, sempre vai ter gente vivendo nos lugares onde eles chegam atirando. Quando a polícia chega atirando, não parece ter havido qualquer tipo de preparação de inteligência para que ocorresse a operação", opina.

Ver uma cena impactante ser exibida em uma novela no horário nobre da Globo é vista como importante, mas a professora diz acreditar que não se deve generalizar o assunto.

"Acho importante, mas me preocupa que talvez vire mais tema de preocupação no geral quando aparece na ficção do que quando alunos são assassinados a caminho da escola ou até mesmo dentro das escolas, como já aconteceu no Rio."

"É só se abaixar mesmo e orar para não morrer ninguém"

Professora de educação infantil, Rachel Nessel já passou por situações assustadoras em duas escolas diferentes do Rio. Em 2017, ela teve que proteger seus alunos, menores de 2 anos, de uma troca de tiros que aconteceu nos arredores de uma comunidade do Grajaú, zona norte do Rio.

Os policiais ficavam na nossa janela, tinha até policial no telhado e eu com as crianças do berçário, apavorada. A gente fez a hora do soninho e botou todo mundo pra dormir num lugar mais seguro porque não tem muito pra onde ir, não. Infelizmente não tem lugar mais seguro. A creche é na rua, é só se abaixar mesmo e orar para não morrer ninguém.

Rachel Nessel, professora de educação infantil

Em outra escola, no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na zona norte carioca, a professora presenciou alunos do 5º ano se protegendo com mais "naturalidade" dos tiros.

"Estavam acostumados, escutavam tiros, a gente ia para o pátio ou refeitório, eles abaixavam a cabeça ou não iam para a escola e a gente não podia dar falta porque estava tendo conflito na comunidade. O negócio está tão banalizado que a gente escuta tiros e nem se joga mais no chão", conta.

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