PUBLICIDADE
Topo

Doc sobre Marielle tem áudios de celular, memórias e pedido de justiça

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

12/03/2020 12h34

Os dois primeiros episódios de "Marielle - O Documentário", exibidos na terça-feira à noite (dia 10) para cerca de 50 convidados em uma sessão especial, no auditório do Museu de Arte do Rio, penetram na intimidade das famílias atingidas por uma tragédia que chocou o mundo.

A série de seis capítulos, que será exibida na íntegra a partir de amanhã na Globoplay, terá seu primeiro episódio apresentado hoje na Globo, após o "BBB". Marcados por silêncios e lágrimas em meio a relatos inéditos, os capítulos são carregados pela dor da perda e a cobrança por justiça, em uma tensão quebrada por cenas do cotidiano da vida de Marielle Franco e Anderson Gomes, assassinados a tiros em 14 de março de 2018, e seus parentes.

O documentário começa com imagens do Réveillon de 2017 para 2018 de Marielle e Mônica Benício, sua companheira, em uma narrativa marcada por recordações. Em seguida, o documentário revela os áudios enviados pelas vítimas minutos antes do atentado, falando de uma volta para casa interrompida pelo crime.

Em um deles, Anderson conversa com a esposa, Agatha Reis, sobre os problemas de crescimento do filho e sobre uma ida ao médico. "Vamos aguardar amanhã. É isso que nos resta", escreveu, sobre um amanhã que nunca chegou.

Há, também, momentos de felicidade de ambos. Como o baile de debutante de uma Marielle ainda adolescente. Ou o vídeo feito por Agatha para revelar ao marido que estava grávida.

O documentário mostra, ainda, a rotina da assessora Fernanda Chaves, única sobrevivente do crime, que convive com as lembranças do crime em meio ao exílio forçado.

O diretor Caio Cavechini acompanhou a exibição na segunda fileira, ao lado de Marinete da Silva, mãe de Marielle. De pernas cruzadas, ele manteve o olhar fixo no telão, como se observasse o documentário pela primeira vez. Às vezes, mirava o público, para captar alguma reação. Em outras, segurava a mão de Marinete para confortá-la.

As denúncias de tiroteios e violações em operações policiais no Complexo da Maré, conjunto de favelas da zona norte carioca onde Marielle foi criada, revelam a atuação da mulher que se tornou vereadora do Rio e que entrou no mundo político como assessora de Marcelo Freixo. "Sou morador! A minha carteira de trabalho aqui!", dizia um anônimo na Maré, em vídeo registrado durante uma ação da polícia.

O tom pesado do drama e da tragédia é amenizado por conversas do cotidiano. Em algumas vezes, envolvendo dona Marinete, retratada como uma mulher forte que chora ao ver as fotos da filha. Em outras, mostrando o pai Antônio Francisco da Silva Neto como um sujeito sorridente e espontâneo, criado com seis irmãos na favela Baixa do Sapateiro, na Maré.

Em algumas cenas, o jeito espontâneo da família, retratado no documentário, leva o público aos risos.

Intencionalmente ou não, as cenas passam ao telespectador a impressão de fazer parte daquela família alegre diante de uma Marielle sempre presente. Mesmo após a morte. Mas, em seguida, ele é levado a viver o luto, ao ver as imagens aéreas de uma multidão abrindo passagem para o caixão que leva o corpo da vereadora, em frente à Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Em meio a uma entrevista exibida no documentário, o vereador Tarcísio Motta, do PSOL, tira os óculos, enxuga as lágrimas e dá um longo suspiro: "Ainda é difícil". A viúva, Mônica, relembra da última vez que viu Marielle. Ela entra no elevador, manda um beijo, diz que a ama. E Mônica vê o elevador fechando, levando para sempre a recordação da última vez que a viu.

No segundo capítulo, a luta por justiça, a mobilização popular, a repercussão internacional e o primeiro ano após o crime montam um cenário do impacto do caso.

A audiência de dezembro de 2019 com a desembargadora Marilia de Castro Neves, acusada de propagar fake news nas redes sociais ao postar uma história falsa de ligação de Marielle com o tráfico após o crime, revolta o público. Em seguida, dona Marinete, mãe de Marielle, aparece no telão: "É muito cínica! É muita cara de pau". O público aplaude forte e parece buscar ali uma válvula de escape para a tensão da história contada no telão.

Após o fim da sessão, as luzes acendem. O público sai em silêncio. Há, também, um som abafado de choro. E uma pergunta, que ainda precisa ser respondida: "Quem mandou matar Marielle e por quê?".

Televisão