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O que Milton Cunha faz depois do Carnaval? Mais coisa do que você imagina

O carnavalesco e comentarista da Globo Milton Cunha - Andre Melo Andrade/MyPhoto Press
O carnavalesco e comentarista da Globo Milton Cunha Imagem: Andre Melo Andrade/MyPhoto Press

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

08/04/2020 04h04

Quem vê Milton Cunha comentando o Carnaval na TV, onde usa e abusa de termos como "bafônico", "um lu-xo" e "criteriosíssima", talvez não imagine que está diante de um verdadeiro catedrático do samba. Pesquisador e professor universitário com mestrado, doutorado e pós-doutorado pela UFRJ, onde se especializou nas estruturas narrativas de Joãosinho Trinta e Rosa Magalhães, o carnavalesco tem um currículo na plataforma Lattes tão longo quanto uma noite de desfiles na Marquês de Sapucaí.

Além de ensinar produção em Carnaval no programa de pós-graduação na universidade Cândido Mendes, Milton passa boa parte do ano dando palestras em empresas, prestando consultorias técnicas —festas juninas incluídas— e, quando sobra tempo, ainda encarna o jurado faz presença VIP em eventos diversos. Mais recentemente, perdeu a vergonha que nunca teve encarando um novo desafio: ser youtuber. Mas tudo isso não passa de um personagem . "É o que ganha dinheiro", resume ele ao UOL.

O carnavalesco Milton Cunha em jantar na casa da cantora Elza Soares, em Copacabana, no Rio - Zô Guimarães/Folhapress - Zô Guimarães/Folhapress
O carnavalesco Milton Cunha em jantar na casa da cantora Elza Soares, em Copacabana, no Rio
Imagem: Zô Guimarães/Folhapress

Fora das telas, entre uma gargalhada e outra, Milton tem uma rotina pacata ao lado do marido, Eduardo, um professor de educação física com quem vive há 11 anos e divide seu amplo apartamento no Bairro Peixoto, na região de Copacabana. Lá, gosta de ler, ver séries ("amei 'Trotsky' e 'Self Made'") e de refletir sobre o mundo da vida e da intelectualidade. Atualmente, está debruçado sobre seu arquivo pessoal para finalizar uma fotobiografia, "Close dos Closes - Fotoruptura Biográfica", que sairá pela editora Malê após a quarentena. Milton não para.

Na espontânea e espalhafatosa filosofia do carnavalesco, que o brasileiro aprendeu a amar, a chave desse sucesso cabe em uma palavrinha: coragem. "Entrei na Globo quando estava em um ensaio técnico e vi o Miguel Athayde, marido da Renata Vasconcelos, diretor da Globo Rio na época. Bati na coxa dele e pedi uma chance. Ele perguntou se eu teria tempo. Falei: 'Você não sabe o esforço que eu faria para emplacar essa chance'. Ele então pediu para conversar na emissora na segunda de manhã. E eu fui", lembra Milton, comentarista global desde 2013.

UOL - Como é ser Milton Cunha no dia a dia?

Milton Cunha - Minha personalidade é multifacetada. Mas esse ator, esse artista emplumado, colorido, é um personagem que montei e que ganha dinheiro, que é amado pelo público. Com ele, faço o Carnaval, eventos. Mas minha vida mesmo é supernormal.

Eu e o Du [marido] adoramos filmes, cinema, teatro. Conversamos e lemos muito. Temos um circuito pequeno de amigos e ficamos muito em casa. Minha rotina é regrada. Quem pensa que eu acordo às 8 horas da manhã na segunda vestindo plumas está f*.

Você está na televisão há duas décadas, na TV Educativa, Band, CNT, Globo, e há dez anos não assina um desfile. O que mais pesou nessa escolha?

Eu sempre namorei com a comunicação. Tive coluna no jornal "O Dia", no rádio. Na verdade comunicar é meu primeiro talento. Usei o Carnaval, a escola de samba, como um trampolim para chegar na comunicação.

Carnaval é muito figurino, carro alegórico. Um trabalho fenomenal, mas não era minha primeira opção. A experiência no barracão me serviu para ver como se faz, para poder ser uma voz dentro do Carnaval.

Milton Cunha no aniversário de 30 anos da Marquês de Sapucaí, em 2014 - Marcelo de Jesus/UOL - Marcelo de Jesus/UOL
Milton Cunha no aniversário de 30 anos da Marquês de Sapucaí, em 2014
Imagem: Marcelo de Jesus/UOL

Você fez sucesso instantâneo como comentarista na Globo. Como fez para chegar até lá?

Tive uma vida humilde em Belém. Eu me formei em psicologia e vim num pau de arara para o Rio em 1982. Queria trabalhar com teatro, cinema balé, ópera, mas era difícil de dar dinheiro. Logo que cheguei, pedi uma chance ao Daniel Filho [diretor da Globo na época]. Recebi um sonoro não.

Um tempo depois resolvi pedir ao Roberto Talma [também diretor] uma chance para comentar os desfiles de Carnaval. Recebi um sonoro não de novo. Nisso eu já trabalhava em outras emissoras e pensava que jamais entraria na "Vênus Platinada".

Por quê?

Eu sou muito pintosa, atacada, colorida, emplumada, para o padrão Vênus. Para entrar lá, tive que encontrar um homem corajoso como o Miguel Athayde, a quem rendo toda minha gratidão, pela coragem que ele teve. Porque não é fácil dar a chance para um "maluco", né? Tem que ter colhão.

Você voltou a estudar em 2004 e hoje é professor e tem um currículo invejável. O que há de mais atraente no mundo acadêmico?

Sempre acreditei no estudo. Em sentar e escutar grandes mestres. Se você tiver essa abertura, seu leque se diversifica. Estudar é fundamental. O estudo foi o que me salvou. O que me trouxe ao Rio. A intelectualidade e a erudição são ferramentas de liberdade.

Roland Barthes [filósofo francês] diz que o professor abre janelas. E através do sabor o saber é transmitido. A educação só interessa se você se libertar.

Milton Cunha (Reprodução) -  -
Reprodução

Há quem diga que o Carnaval carioca perdeu a aura e hoje funciona basicamente como um grade negócio. Concorda com isso?

A sociedade do espetáculo, da imagem, da globalização, das redes, é um caminho sem volta. O importante é manter o turista na plateia, pagando ingresso e salvaguardando o local do desfile para o sambista de comunidade.

É preciso haver dinheiro de vendas de ingresso e de direitos de imagem, sim. Mas também é preciso garantir que só quem saiba cantar, sambar e fale português protagonize o desfile.

Mas e as comunidades?

No início dos anos 2000 a escola se afastou muito delas, mas rapidamente entendeu que estava ficando ruim. Hoje a coisa mudou. Existe distribuição de fantasias para a comunidade. Não tem mais ala comercial. Não se vende mais roupa. O Carnaval voltou para onde veio.

Em tempos de polarização, ainda dá para dizer que o Carnaval é reflexo da sociedade brasileira, como teóricos costumam afirmar?

O Carnaval é machista, misógino, racista, homofóbico. Está tudo lá. Faltam carnavalescos negros. Faltam presidentes mulheres. O Carnaval é reflexo do mundo. Incluindo do problema da supervalorização do espetáculo para turista ver.

Seu visual colorido gerou memes e comparações com Elton John. Você gostou? Acha que ele renderia um bom desfile?

Gostei. Mas não acho que temas estrangeiros rendam bons enredos. Acho que a ponte de brasilidade tem que ser muito forte. A menos que o Elton John tivesse morado no Brasil uma década ou duas. Ou que tivesse profundas ligações com o país, o que não é o caso.

24.nov.2016 - Milton Cunha, carnavalesco e comentarista da TV Globo, apresenta pelo terceiro ano seguido o quadro Enredo e Samba no "RJTV - Primeira Edição"  - Estevam Avella/Divulgação/TV Globo  - Estevam Avella/Divulgação/TV Globo
Imagem: Estevam Avella/Divulgação/TV Globo

Que enredo o Carnaval precisa ter?

Acho que tem muito assunto nacional para ser enredo. Os gays do Brasil, por exemplo. A história da luta gay no Brasil nunca foi, né? A história do jornalista João do Rio. A história do primeiro homossexual morto pela inquisição. As histórias de Dzi Croquettes, Rogéria, Valéria, Roberta Close. Isso tudo merece enredo e nunca foi contado. Tem muita boa história brasileira que merece estar lá.

Para finalizar: por que você decidiu lançar uma fotobiografia neste momento?

Estou escolhendo 300 fotos de 58 anos de vida. Essas fotos atestam minha coragem, meu sonho. Então eu vou mostrar pros leitores como é preciso se jogar na vida e viver com força, disposição. Quero que o livro dê força para nós neste momento.

Para quem, exatamente?

Eu digo no livro que nós, as "bichas pintosas", desde muito pequenos nos acostumamos a levar porrada. É como se você já tivesse morrido, já que a única chance de sobrevivência é ser outra coisa. A gente se acostuma com a infelicidade da solidão. De não ter apoio.

Então ou você vira um caracol dentro da concha, cheio de traumas e medo, ou você se lança à luta. No meu caso eu me joguei. Empurrei a porta com uma voadora, arrombei tudo e saí. Quero que as pessoas leiam e possam dar uma voadora na porta delas.

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