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Repórter agredida com 'bandeirada' relata ataques: 'Objetivo de intimidar'

A repórter Clarissa Oliveira em entrada ao vivo direto de Brasília - Reprodução/Instagram
A repórter Clarissa Oliveira em entrada ao vivo direto de Brasília Imagem: Reprodução/Instagram

Marcela Ribeiro

Do UOL, no Rio

19/05/2020 12h49

Clarissa Oliveira, a repórter da Band, agredida com uma 'bandeirada' na cabeça durante a manifestação de domingo (17) em frente ao Palácio do Planalto, detalhou o que ocorreu e disse que essa não foi a única agressão sofrida nos últimos dias. Assim como aconteceu com outros colegas de profissão, que têm feito cobertura política, ela já sofreu outros ataques.

Estamos lidando com fatos que precisam ser noticiados. São acontecimentos que atentam contra a liberdade de imprensa, que têm o claro objetivo de intimidar. Estamos ali trabalhando. Se saímos de casa numa manhã de domingo, no meio de uma pandemia, para ir ao centro de uma aglomeração, é para exercer uma função. O melhor jeito de lidar com isso é noticiar.

Em outra manifestação, ocorrida no dia 15 de março, Clarissa se preparava para entrar ao vivo quando foi cercada por um grupo de aproximadamente dez pessoas.

"Um deles começou a me xingar bastante. Naquele momento, o cinegrafista que me acompanhava chegou a discutir com ele. Outro grupo se aproximou, e um manifestante ameaçou jogar tinta verde e amarela em mim. Dizendo que, se eu falasse mal do governo, era o que aconteceria."

O clima só acalmou um pouco quando uma outra mulher se aproximou para acudi-la. "Eu disse, da forma mais simpática possível, que estava ali trabalhando. Fiz piada para aliviar o clima. Disse que eu estava de plantão, em baixo do sol, sem protetor e que tinta na cara seria crueldade demais. Ele recuou", relata.

'Jornalistas lixo'

Clarissa detalhou ao UOL como ocorreu a agressão de uma manifestante com uma bandeira. Ela contou ontem em seu Instagram que registrou um boletim de ocorrência.

"Estava ao vivo, vi que ela se aproximava. Ela gritava palavras como 'jornalistas lixo' e falava que venderem o Brasil para os chineses. Tive um problema no meu retorno e saímos do ar. Comecei a checar mensagens no celular e deixei de prestar atenção nela. Até que veio a bandeirada na parte de trás da cabeça, eu soltei um grito, até pelo susto. E uma garota que estava do meu lado reagiu também".

Momentos depois da agressão, a repórter lembra que a garota e alguns outros manifestantes conversaram com ela amigavelmente e até pediram para tirar fotos.

"Acho que ela se solidarizou. E assim a mulher que tinha dado a bandeirada riu e disse apenas: 'foi sem querer'. E seguiu andando, rindo. Deixo as imagens do cinegrafista da Band, o Chiquinho do Fogo, mostrarem o que aconteceu. Mas estava fora do ar, então, imagino que ninguém achasse que estava filmando. Eu não reagi. Até porque manifestação é sempre um ambiente onde as coisas podem escalar".

Ataques frequentes

A repórter destaca que ataques como esses infelizmente têm se tornado cada vez mais comuns e que já vêm acontecendo há algum tempo.

"Tivemos poucas semanas atrás o caso da agressão aos fotógrafos Dida Sampaio e Orlando Britto. Eu não estava presente, tomei conhecimento pela imprensa. Em 2013, eu trabalhava em cargo de chefia, também aqui em Brasília. Mas ouvi relatos de muitos amigos que foram agredidos durante a cobertura. Me lembro da bala de borracha que acertou o olho da Giuliana Vallone [então jornalista da Folha de S.Paulo]. Me lembro de ver as imagens da agressão ao Caco Barcellos em 2016. Existem exemplos de sobra."

Clarissa lembra que a cobertura presidencial na época do mensalão "foram tempos de tensão também". E que os ataques não são só presenciais e se estendem às redes sociais.

"Sobre redes sociais, nos últimos dias recebi muitas mensagens de apoio, outras críticas, algumas agressivas. Mas respeito o direito de cada um de se expressar. Se for dentro do limite da lei, estão livres para dizer o que pensam de mim ou desse episódio."

'Ninguém deve diminuir o papel institucional da imprensa'

A jornalista destaca que a cobertura presidencial é e deve ser sempre prioritária em qualquer veículo de comunicação e comenta as recentes falas agressivas do presidente Jair Bolsonaro no tratamento com a imprensa. No início do mês, ele falou, durante um pronunciamento no Palácio da Alvorada, para um repórter calar a boca. Diante da repercussão negativa, desculpou-se mais tarde.

Ninguém deve diminuir o papel institucional da imprensa. Todos têm o direito de contestar uma reportagem ou uma cobertura. Buscar reparação judicial caso se sinta prejudicado por uma reportagem, por exemplo. Pedir outro lado, criticar. Mas o papel da imprensa como instituição precisa ser preservado.

Por enquanto, a repórter não toma nenhuma medida de segurança específica em relação aos ataques.

"Se você é jornalista, você vai onde as coisas acontecem. É meu trabalho. Como eu disse, os próprios manifestantes recriminaram a atitude. Em geral, estamos nessas coberturas em equipe, o que ajuda muito. E os jornalistas costumam ficar juntos nessas horas".

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Apesar dos riscos de momentos conturbados como os atuais, Clarissa ama trabalhar com reportagem externas.

"Sou suspeita para falar, porque adoro uma rua. Passei dez anos em cargos de edição ou chefia. E quis voltar para a rua. E estou muito feliz com a minha escolha".

Descuido

A servidora Angela Telma Berges afirmou em entrevista à Folha que não quis agredir a jornalista da Band com a bandeira.

"A bandeirada na repórter foi um acidente. Estava olhando os paraquedistas e me descuidei... Acontece, né? Já levei tantas bandeiradas. Quebraram até meu óculos. Porém, entendo que foi um acidente", disse.

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