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A arte de conectar pessoas: Alicinha criou a profissão 'promoter' no Brasil

Breno Boechat

De Splash, no Rio

02/08/2021 20h37

A mulher que é sinônimo de festa.

Foi assim que Marília Gabriela anunciou Alicinha Cavalcanti no programa "De Frente Com Gabi", do SBT, em 2014.

A entrevista foi uma das últimas que Alicinha concedeu antes de descobrir, no ano seguinte, que sofria de afasia progressiva primária. Depois de seis anos lutando contra a rara doença neurológica, a primeira promoter de festas do Brasil morreu hoje, em São Paulo, aos 58 anos.

Muitos artistas e amigos prestaram homenagens a ela nas redes sociais. Gabi foi uma das primeiras, com um texto agradecendo pela amizade de mais de 30 anos.

Minha amiga mais linda, mais generosa, amiga que não se abatia com nada, que a tudo vencia com ânimo e alegria [...] Ah, Lilizinha querida, você vai fazer uma falta danada. Até qualquer hora, se for assim que as coisas se dão.

Marília Gabriela, no Instagram

Durante mais de três décadas, Alicinha foi uma das maiores realizadoras de eventos do país. Famosa pela simpatia e pelo profissionalismo, era a "rainha" das listas VIP.

E ainda ostentava uma agenda de contatos de celebridades praticamente inesgotável. Em 2014, eram mais de 37 mil nomes na lista, como ela contou na entrevista:

Sempre tive o hábito de anotar o nome das pessoas no meu caderninho desde pequena. Nem imaginava que ia ser útil para alguma coisa.

Alicinha Cavalcanti, em 2014, no 'De frente com Gabi'

O caderninho a ajudou a produzir eventos enormes, dentro e fora do Brasil. Só no camarote da Brahma, um dos mais concorridos do Carnaval carioca, o comando da lista foi de Alicinha por mais de 25 anos. A relação com a folia era muito grande, aliás. Alicinha era também diretora da Grande Rio e desfilou na Marquês de Sapucaí por mais de 10 vezes.

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Alicinha Cavalcanti organizou a lista VIP de camarotes do carnaval por mais de duas décadas
Imagem: Reprodução/Instagra,

As anotações ajudaram também em outro atributo importante na profissão de promoter: a memória. "Ela sempre lembrava o nome de todo mundo e era muito gentil, muito atenciosa, muito charmosa. Você sabia que podia ir que a festa seria boa", conta Zeca Camargo que conheceu Alicinha nos anos 80, na noite paulistana.

As amizades eram um grande trunfo, explica o apresentador do UOL. Além do faro de promoter, em uma época em que a profissão ainda não era reconhecida.

"Hoje você tem profissionais que fazem isso, mas ela tinha o faro, essa sensibilidade", explica Zeca, que foi a muitos eventos organizados pela amiga. Ele conta que era praticamente impossível negar um convite de Alicinha Cavalcanti.

A Alicinha conhecia essas pessoas de fato, era mais natural para ela. Por isso era tão difícil recusar um chamado dela. Das coisas que eu participei, nunca senti como um favor profissional. Era uma amiga que estava pedindo.

Zeca Camargo

No papo com Marília Gabriela, a promoter contou qual era o segredo para dar uma boa festa: "Diferentes tribos, idades... Tem que ter uma coisinha diferente", contou Alicinha, que evitava os chamados "clubinhos VIPs": "Se você convidar só um grupo sempre, eles podem se reunir na casa deles". Zeca reforça:

O que faz a festa são as pessoas, as misturas, as conexões. A Alicinha tinha isso na ponta dos dedos. A arte que ela inventou era de juntar as pessoas, mais que as festas, que eram um subproduto disso.

'Vendia o almoço para pagar a janta'

As amizades famosas foram comuns desde a adolescência. Com 15 anos, Alicinha, que é natural de São José do Rio Preto, em São Paulo, foi com a família para o Rio e acabou se enturmando com a galera da música. Onde? Na praia, claro.

"É o lugar mais democrático para você conhecer todo mundo. Ali conheci a Dedé, que era mulher do Caetano, o Cazuza, o Lulu [Santos]", contou ao "De frente com Gabi". Nessa época, as festas eram só para curtir.

Alicinha - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Alicinha Cavalcanti começou a trabalhar depois de organizar a própria festa de aniversário
Imagem: Reprodução/Instagram

A profissão, como as amizades, também acabou vindo naturalmente. Já em São Paulo —depois de um tempo em Brasília, com um namorado— ela queria comemorar seu aniversário em uma das casas mais badaladas da época, o Gallery, mas não tinha dinheiro. "Eu vendia o almoço para pagar a janta", contou à Gabi.

Foi quando conheceu o empresário José Vitor Oliva, um dos donos da casa noturna.

Ele me falou que tinha uma segunda-feira vazia: 'Você traz a bebida que eu te dou os canapés, o DJ, o vallet. Saí igual louca na casa das pessoas, fui catando uísque, vodka, tudo. Cheguei e ele falou: 'Bebida, só com nota. É a casa mais visada da América Latina'.

A solução foi ir ao supermercado e comprar o que dava: "Quando coloquei as garrafas na mesa, pensei: 'Não acredito que vou servir esse uísque vagabundo nuns copos de bacana, mas é o que temos".

E todo mundo adorou

"Naquela segunda, o pessoal ficou dançando até 7h. Ele falou: 'Pirralha, de onde você tirou toda essa gente?'", contou Alicinha, na entrevista. A partir de então, os dois fizeram uma das maiores parcerias da noite paulistana.

Nos mais de 40 anos de profissão, Alicinha fez poucos desafetos. "Mesmo quando ela não te colocava no grupo, você se sentia querido. Era muito delicada e muito querida", conta Zeca Camargo. Mas teve gente que saiu da lista.

Já excluí gente da lista por beber demais, perturbar pessoas que nem conhecia. Por isso que quando invento festa ou qualquer outra coisa eu não bebo. Fico observando e andando, para ver como as pessoas se comportam.

Sobre o famoso "curralzinho VIP", ela contou no programa de Marília Gabriela que existe um motivo para ter um espaço reservado para as celebridades em um evento. E citou a própria apresentadora como exemplo: "Tem pessoas que gostam da festa, mas não querem ficar o tempo todo falando com a imprensa. É o seu caso".

Não quis ser mãe

Na vida pessoal, Alicinha também sempre foi muito discreta. "Eu sempre falei uma coisa: onde você trabalha, você não come", disse ela, sobre nunca ter namorado famosos.

A promoter era casada havia 16 anos com Rodrigo Biondi, que também é produtor de eventos. Os dois não tiveram filhos.

Tive uma gravidez tubária, três paradas cardíacas, fiquei com medo. Desde aquela época, 2007, eu interrompi minha menstruação, porque teria o risco de outra gravidez tubária.

Na entrevista, ela diz a Marília Gabriela que depois concluiu que essa foi a melhor decisão, por conta da vida profissional e o estilo de vida que ela e o marido tinham.

alicinha - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Alicinha Cavalcanti foi casada com o também produtor de eventos Rodrigo Biondi por 16 anos
Imagem: Reprodução/Instagram

Quando decidi, fiquei vendo os prós e contras, eu vi que não cabe. E encontrei o Rodrigo que também não tem o interesse. A gente quer viajar, não ter hora para nada. É uma responsabilidade muito grande, uma criança.

O legado que Alicinha deixa é uma profissão que hoje é respeitada em todo o país. E virou referência para quem segue os passos, como a promoter Carol Sampaio, grande nome das listas VIP dos últimos anos.

"Primeiro comecei a me inspirar nela, depois tive a oportunidade de conhecer, trabalhar, e aprender muito com ela", disse Carol, em entrevista ao UOL.