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Vice-Miss Universo SP denuncia racismo no concurso; organização diz apurar

Ieda Favo descreveu tratamento hostil desde o início da competição - Reprodução/Instagram
Ieda Favo descreveu tratamento hostil desde o início da competição Imagem: Reprodução/Instagram

Do UOL, em São Paulo

07/10/2021 08h10Atualizada em 08/10/2021 08h52

Ieda Favo, vice-campeã do Miss Universo São Paulo, relatou o racismo sofrido por ela durante a competição de beleza que seleciona candidatas ao Miss Universo Brasil.

Negra e representando a cidade de Guarulhos, a atriz deixou claro que a exposição nada tem a ver com o resultado final. Ieda ficou em segundo lugar, chegando ao top 3 do concurso.

Contudo, ela era a única mulher negra entre as três finalistas. O tratamento discriminatório começou com o início do Miss Universo SP, que disse que o evento pode ser cancelado.

Coisas horríveis aconteceram e não quero que se repitam com outras pessoas. Deixando bem claro que não tenho interesse na faixa nem na coroa. Estou aqui em forma de apelo para que isso não se repita com nenhuma menina. Nunca me senti tão discriminada na minha vida! Desde o primeiro contato sempre tive um contato muito hostil por parte da organização. Ieda Favo

Ieda apontou que o tratamento dela comparado com as demais colegas era diferente.

Em alguns momentos, foi pedido para que a modelo ficasse atrás nas fotos, como se a estivesse escondendo.

Sempre me pediam para ficar atrás, no fundo, nos momentos das fotos e vídeos. Quais eram as justificativas? Era por conta da minha cor, por que sou negra? Por conta da minha condição social, da minha cidade? Ieda Favo

Segundo a atriz e vice-campeã, os produtos para seu cabelo não foram disponibilizados.

Em nota, a organização do Miss Universo SP afirma que deu os produtos da preferência que as candidatas pediram "em tempo hábil".

Tive que cuidar do meu cabelo, porque não tinha profissionais nem produtos. Isso porque a gente mandou com 20 dias de antecedência a lista de produtos que nosso cabelo precisa para ser tratado no dia. E não tinha. Só chegou muito depois para eu mesma fazer. Ieda Favo

A competição foi feita na cidade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Outros dois momentos de racismo descritos por Ieda foi quando o coreografo chegou a puxá-la.

O homem não teve a identidade revelada.

Me colocou na posição que ele queria que eu ficasse. Fui a única que ele tocou e ele tocou de forma forte, dura. Você que não sabe, passei por muitos problemas na minha infância e adolescência que me geraram traumas. E um homem daqueles me segurar de forma rude me remeteu ao meu passado. Fiquei extremamente abalada, fiquei extremamente desnorteada. Ele fez isso só em mim, em nenhuma outra candidata. Ieda Favo

Já na final, ao lado da Miss Jaú e Miss Ribeirão Preto, Ieda foi a úncia que teve uma pergunta feita de última hora.

Segundo ela, a pergunta feita pelos jurados não estava na lista de 13 possíveis questionamentos enviada pela organização antes do concurso.

A primeira respondeu, a segunda respondeu e a minha pergunta era a única que não estava na lista! Era a única pergunta! Por que aconteceu isso comigo? Por quê? E estou usando como apelo que não se repita com mais ninguém. Ieda Favo

No final do relato, Ieda reforçou que fez o desabafo para que se tenha uma igualdade no concurso e que ninguém receba um tratamento discriminatório.

O Miss Universo SP divulgou uma nota em seu perfil oficial dizendo não compactuar com o racismo e que "nunca houve orientação para dar tratamento diferenciado para qualquer candidata".

Na legenda da nota, o perfil citou o concurso de 2013, em que a candidata Thais Andrade era negra, como justificativa para o respeito à diversidade. Contudo, a participação dela não blinda outras participantes negras de denunciarem os tratamentos.

O perfil tratou de afirmar que o coordenador do concurso, Eder Ignácio, "nunca passou por tal situação" em 24 anos de trabalho e que "não há nada na sua biografia que o desabone".

Sobre o caso em si denunciado, a organização disse que a "avaliação das candidatas foi realizada durante todo o discorrer do confinamento, através de júri técnico e qualificado" e "fará a apuração dos fatos, vez que todos os temas levantados pela candidata são de extrema relevância e gravidade".

Miss Universo SP disse ter entregue os produtos de beleza para os cabelos de todas as modelos e que "os profissionais de beleza foram disponibilizados para todas as candidatas, tendo sido escolha exclusiva da candidata em questão, a realização de seu penteado no desfile final".

Desde já a equipe do Miss Universo São Paulo 2021 se solidariza com a situação narrada e oferece todo o apoio à candidata leda. A organização se coloca à disposição da candidata para a disponibilização das imagens e documentos inerentes ao concurso, para que as eventuais medidas judiciais sejam acionadas se identificada qualquer irregularidade, reforçando que, em contrapartida, a equipe jurídica do Miss Universo São Paulo 2021 já foi acionada e está trabalhando no caso. Miss Universo SP

A final do concurso foi no último dia 2, com a Miss Jaú, Bianca Lopes, recebendo o título de Miss São Paulo e classificada ao Miss Brasil.

Cerca de 54% da população brasileira se reconhece como negra em 2014, segundo dados do IBGE. A primeira vez que uma mulher negra ganhou o título de Miss Brasil foi em 1986, com Deise Nunes.

O concurso começou em 1954. Além da gaúcha, só outras três candidatas negras venceram o concurso de beleza nacional: Jakelyne Oliveira, em 2013, Raíssa Santana, em 2016, e Monalysa Alcântara, em 2017.