Down no high society

Pioneiro no colunismo social na TV, Amaury Jr. investe em emissora nos EUA e lamenta fim das grandes festas

Gilvan Marques Do UOL, em São Paulo
Renato Stockler/Divulgação

Amaury Jr. praticamente levou o colunismo social para a televisão no início da década de 80, quando o aparelho ainda exibia os primeiros anos de transmissão a cores.

Ao longo dos quase 40 anos --ininterruptos, gosta de frisar--, o apresentador se acostumou a frequentar festas grandiosas, envolvendo a parte mais abastada da sociedade, entre celebridades, políticos de carreira e empresários bem-sucedidos.

"Eu sou da época em que as pessoas gostavam de se expor, de ostentar, de mostrar a fortuna, de fazer extravagância. De fechar a casa e mandar abrir umas cinco caixas de champagne Veuve Clicquot", recorda ele, revelando uma certa nostalgia de um tempo que não existe mais.

Hoje não temos mais festas como tínhamos antigamente. Está tudo muito empobrecido no Brasil. As pessoas mudaram os seus focos, os tempos mudaram.

Não que o apresentador tenha desistido do país. Aos 71 anos, acaba de deixar a Band para retornar à RedeTV! em um programa semanal. Em busca de novos mercados, também se tornou sócio e vai investir em uma TV em Orlando, nos Estados Unidos, direcionada ao público brasileiro.

"Eu quero dinheiro para fazer a televisão que ainda não fiz depois de 40 anos. Tenho tudo aqui na minha cabeça, mas faltam recursos."

Casado, pai de dois filhos e avô de quatro netos, Amaury pensa na família ao comentar o futuro que espera do país, fala sobre o filho perdido com uma prostituta numa época em que "não existia exame de DNA" e, num papo sem censura, revela quais entrevistados lhe deram mais prazer e mais trabalho.

Fim de uma era

Imagem/Arquivo pessoal Imagem/Arquivo pessoal

O drinque, a fama e o anonimato

Amaury Jr. relembra os bons tempos em que reinava sozinho no colunismo social na televisão e revela truques para conseguir tirar uma boa declaração de seus entrevistados. Entre eles, um bom drinque.

"Eu era a única pessoa que transitava pelas celebridades e, como estava sozinho nessa disputa, eu logo percebi que na descontração das festas, as pessoas ficavam mais maleáveis, mais predispostas a falar depois do primeiro drinque", entrega ele, rindo.

Entre uma tosse e outra, e com a inconfundível voz rouca, possivelmente devido ao cigarro do qual não abre mão, o apresentador analisa os novos tempos e considera que a palavra celebridade ficou "vulgarizada".

Uma sorte, uma dificuldade e uma gafe

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Liza Minelli

A rainha dos musicais é evocada pelo apresentador ao relembrar uma das melhores celebridades que já entrevistou, não apenas pela disponibilidade, mas pelo momento que presenciou. "Houve uma coincidência quando a entrevistei. Tinha acabado de chegar a notícia do fisioterapeuta dela, de Nova York, de que ela não iria poder mais dançar. Eu estava com as luzes prontas. E ela não suspendeu a entrevista. Toquei no assunto. Liza Minnelli quase chorou. Depende muito da sorte. Nesse caso, a desgraça dela foi a minha sorte".

Eduardo Anizelli/Folhapress Eduardo Anizelli/Folhapress

Luis Fernando Veríssimo

O colunista até tenta ser diplomático quando é questionado se já pegou ranço de algum de seus entrevistados. Meticuloso, pensa muito antes de responder: "Luís Fernando Veríssimo é monossilábico. Ele é muito difícil para falar. Todo mundo reclama! 'Como é que vai o seu trabalho?' 'Vai bem'. 'Você acha que o seu trabalho vai ser lançado ainda neste semestre?' 'Acho que sim'. Eu fico irritado é com pessoas monossilábicas. O cara não desembucha!"

Reprodução/TV Bandeirantes Reprodução/TV Bandeirantes

Marcelo Nascimento

Em 2001, o apresentador foi passado para trás durante uma festa no Recife. Amaury foi abordado por Marcelo Nascimento da Rocha, que se fez passar por Henrique Constantino, filho do fundador da Gol, e até contou planos de expansão da empresa aérea. Considerado o golpista mais conhecido do país, Rocha voltou à prisão em 2018. "Ele sabia tudo da empresa, era inteligente, muito simpático, afável, mas muito malandro, sacana e 171", disse ele, aos risos, em seu programa em 2010.

"Elitista? Não"

"Todo mundo é feliz e gostosa no Instagram"

"Por que Neymar precisa dar uma entrevista a um veículo se é seguido no Instagram por 111 milhões de contas?", questionou o colunista do UOL Mauricio Stycer ao analisar a nova fase do jornalismo de celebridades em texto recente.

Veterano no ramo, Amaury Jr. concorda que a rede social de Mark Zuckerberg se tornou um concorrente direto do seu trabalho.

"O Instagram é um fortíssimo concorrente. Hoje cada um tem o seu próprio canal, qualquer um fala a respeito de si próprio em seu perfil. As pessoas não precisam tanto de colunistas, né?", admite.

A mudança, ele afirma, não se limita apenas às celebridades. A ostentação de bens e conquistas que os entrevistados mostravam antes em seus programas migraram para a tela do celular. Mas para Amaury, trata-se de um exibicionismo fake.

"Essa ostentação que se mostra hoje nas redes sociais, eu não acredito muito nela. Todo mundo é feliz e gostosa no Instagram. Todo mundo é perfeito. É como se fosse uma autobiografia, não tem valor algum", alfineta.

Crítico do ego inflado, Amaury afirma que o Instagram serve também para apontar o grau de deslumbramento e as "burrices" cometidas por famosos.

"É interessante porque você acaba conhecendo um pouco da personalidade da pessoa, o grau de deslumbramento, de ego inflado das pessoas. Eu não quero mais ver mulher pelada no Instagram. Esse nu que ninguém pediu é terrível", diz, citando Nelson Rodrigues.

"Fora as burrices que você vê, coisas hilárias. O Instagram é um verdadeiro circo, com muitos picadeiros."

"Entrevistei metade da Lava-Jato"

A despeito do fim da era das grandes festas, do "empobrecimento" do país e seus investimentos no mercado americano, Amaury Jr. se mostra entusiasmado com o atual momento político do Brasil.

Para o apresentador, que assume ter votado no presidente Jair Bolsonaro, "o ambiente nunca esteve tão favorável para arrumar o país".

"Eu votei no Bolsonaro e torço para que dê certo. É claro que você pode discordar de uma vertente aqui e outra ali, mas, em linhas gerais, o ambiente do governo nunca esteve tão favorável para arrumar o país. Ele tem apoio popular, o que é fundamental. Basta não frustrar".

O tom de voz muda ao referir-se às críticas contra os primeiros meses de gestão do presidente. "Qualquer questão é um tsunami para prejudicar o governo do cara", minimiza.

O apresentador também não esconde a satisfação ao celebrar as investigações promovidas pela Lava-Jato, que culminaram com a prisão dos ex-presidentes Lula e Michel Temer, além de uma grande parcela da elite política e empresarial do país.

"Eu tenho filhos, netos, não penso mais em mim. Eu também quero participar desse processo. Que futuro o Brasil teria se continuasse na mesma toada?", questiona.

Amaury não se constrange em admitir ter entrevistado --e exaltado a biografia-- de boa parte daqueles que hoje estão presos pela operação.

Claro que eu entrevistei metade da Lava-Jato, mas eu não sabia. Eu entrevistei o Roger Abdelmassih várias vezes, entrevistei João de Deus, mas o que eu vou fazer? Todos nós passamos por situações assim.

O rebelde de Rio Preto

A revolução sexual, fenômeno que determinou novos códigos de comportamento sexual entre os anos 1960 e 1970, é usada por Amaury Jr. para explicar o gosto pela noite e festas regadas a bebida, mulheres e sexo sem proteção desde adolescente, quando ainda vivia em São José do Rio Preto, cidade de 370 mil habitantes a 438 quilômetros de São Paulo.

"Eu vivi na década de 60, na contracultura, na revolução sexual. Eu era o rebelde de São José do Rio Preto. Quem nunca foi em 'zona' e nunca se apaixonou por puta? Quem nunca teve 20 gonorreias? Eu perdi as contas de quantas vezes tive. Eram coisas da época", minimiza.

Em sua biografia "semiautorizada" "A Vida é uma Festa" --- porque ele deixa claro que não leu o texto, escrito pelo jornalista Bruno Meier, antes de ser publicado--, ele revela um "filho perdido", fruto do seu relacionamento com uma prostituta.

Amaury confirma a veracidade da história, mas diz nunca ter procurado nem a mãe nem o filho que, segundo o livro, nem soube se chegou a nascer.

A mulher dava para a cidade inteira, pô! Eu fui o escolhido. Não tinha teste de DNA na época. Como é que faz? A mulher ficou grávida e depois eu não sei o que aconteceu

Os discípulos da fofoca

  • Fabíola Reipert

    "Ela é a minha irmãzinha, uma querida. Está fazendo sucesso danado na Record. No começo, a Fabíola era uma 'venenosa' de marca maior. E toda vez que ela escrevia ao meu respeito, eu ligava e dizia: 'Olha, não é isso, tem que corrigir'. E ela corrigia. A Fabíola é uma moça corajosa, publicou coisas que talvez eu não publicasse. Publicou e sustentou. E se deu muito bem."

    Imagem: Paduardo/AgNews
  • Leo Dias

    "Acredito que ele é o sinal da modernidade da fofoca no Brasil. Nunca vi conseguir tanta notícia e esparramar tanta informação como ele. É bonito, alegre, apresentável, fora que me parece falar sempre a verdade. Se eu fosse dono de um jornal, queria ter o Leo Dias comigo. E desejo que ele vença os problemas dele com drogas."

    Imagem: Reprodução/Instagram
  • Otávio Mesquita

    "Gosto dele, mas acho que ainda não encontrou o seu rumo: se vai fazer comédia, se vai fazer colunismo social igual a mim... Eu acho que devia encontrar o foco."

    Imagem: Reprodução
  • Nelson Rubens

    "Nós trabalhamos juntos na revista 'Amiga' e por 16 anos na RedeTV!. É o meu irmão. Eu o considero um ícone da fofoca brasileira. É articulado. 'Eu aumento, mas não invento' é uma marca que ele criou e que poucos conseguirão."

    Imagem: Divulgação Rede TV!

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