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Chico Barney


A música é um detalhe dispensável na live de Gusttavo Lima

Gusttavo Lima cantou, bebeu e cozinhou um interminável carreteiro - Reprodução/YouTube
Gusttavo Lima cantou, bebeu e cozinhou um interminável carreteiro Imagem: Reprodução/YouTube
Chico Barney

Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

Colunista do UOL

12/04/2020 14h40

Estão causando profunda comoção na sociedade as apresentações ao vivo pela internet de cantores populares dos mais variados gêneros, em especial oriundos da música sertaneja.

Gusttavo Lima já havia feito, semanas atrás, uma apresentação épica diretamente do aconchego do lar, quando entoou por horas a fio suas pérolas do cancioneiro tupiniquim.

O sucesso arrebatador motivou diversas outras transmissões promovidas pelo panteão do nosso pop: Marília Mendonça, Jorge e Matheus, Bruno e Marrone, Péricles... A lista é longa e inclui até Valesca Popozuda usando um dildo como microfone.

Mesmo que nem sempre respeitem as melhores recomendações da Organização Mundial da Saúde, que prega o isolamento social como maneira para amenizar a disseminação do coronavírus, a mensagem é sempre relevante, incentivando que o público permaneça em casa. Além disso, generosos volumes de dinheiro e alimentos não-perecíveis são angariados nos principais eventos.

A segunda epopeia empreendida por Gusttavo Lima foi ainda mais lisérgica que a anterior. Em seu nababesco lar em algum ponto próximo a Goiânia, o cantor comandou a maratona de mais de 7 horas, em uma produção que contava até com drones para filmá-lo em situações como a performance na caçamba de um carro de colecionador.

Por melhor que seja o repertório de Lima, um dos mais bem-sucedidos do país atualmente, a ponto de não fazer a menor questão de aparecer em qualquer TV aberta há alguns anos, a música é apenas um detalhe dispensável no grande circo.

A grande atração é o carismático cantor. Bebeu o tempo todo, fez gracejos para a esposa, cozinhou um carreteiro durante horas a fio —em ação comercial para uma marca de arroz, uma das várias patrocinadoras do fuzuê.

Em um momento especialmente pitoresco, recebeu convidados e lambeu o nariz de um dos integrantes de uma dupla reunida por ele. Uma situação rara de se ver e um tanto angustiante no meio de uma pandemia.

As várias pérolas proferidas me faziam torcer para as músicas chegarem logo ao fim. Nada contra, mas era ainda melhor ouvi-lo falar que o álcool da bebida protege por dentro tão bem quanto o álcool gel protege por fora, ou homenagear Kiko Loureiro como um dos melhores guitarristas do mundo, logo depois de tocar uma versão que Calcinha Preta fez para uma canção do Angra.

Gusttavo Lima propôs com essas transmissões ao vivo uma interessante ruptura estética em que tudo o que interessa é sua visão de mundo. Cada detalhe, do recado aos patrocinadores até a espaçada disposição das músicas, é a respeito de um ponto de vista claro e objetivo. Nem sempre coerente, mas quem se importa?

O tamanho do sucesso vem justamente dessa autenticidade, uma transparência brutal e sem intermediários. Concordar ou discordar dele é ainda menos relevante.

Voltamos a qualquer momento com novas informações.

Chico Barney