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Roberto Cabrini conta bastidores de grandes reportagens em livro

Roberto Cabrini - Reprodução/Instagram
Roberto Cabrini Imagem: Reprodução/Instagram
Leo Dias

Leo Dias é jornalista e diretor-executivo do "TV Fama", da Rede TV!. Foi correspondente internacional da rádio portuguesa RDP, passou pelas TVs Bandeirantes e RedeTV! e apresentou um programa na rádio FM O Dia, líder de audiência no Rio de Janeiro, onde entrevistava políticos, jogadores de futebol, dirigentes e muitos artistas. Assinou uma coluna de celebridades no jornal "O Dia" e também esteve nos jornais "Extra" e nas revistas "Contigo", "Chiques e Famosos", "Amiga" e "Manchete". Apesar dessa experiência, sempre se definiu como repórter, tamanha paixão pela apuração da notícia e pela vontade em produzir conteúdos exclusivos. Polêmico, controverso e dono de uma forte personalidade, Leo conquistou um público cativo por dar notas explosivas e audaciosas num mundo artístico mais conservador. Seu lema: "A fama tem um preço estou aqui para cobrar".

Colunista do UOL

13/11/2019 21h34

Maior repórter investigativo do país, Roberto Cabrini é um homem que coleciona histórias, muitas delas marcadas na memória do povo brasileiro, através das reportagens que ele fez ao longo de mais de 40 anos de carreira. Algumas delas, 10 para ser mais exato, ele decidiu recontar, com ainda mais detalhes, no recém-lançado livro 'No rastro da notícia', em que ele revela as dificuldades e os caminhos percorridos para trazê-las ao público.

Os temas são os mais diversos possíveis, indo desde a cobertura da morte de Ayrton Senna até a vivência de Cabrini em guerras como as do Iraque e do Afeganistão. "Eu quis fazer um livro que transportasse as pessoas para situações das mais variadas. Eu tenho certeza que as pessoas vão sentir como se estivessem junto comigo diante de cada dificuldade.", conta o apresentador do Conexão Repórter, em entrevista à Coluna Leo Dias.

Cabrini fala também de como desenvolveu o controle da emoção e do medo em momentos críticos para conseguir reportar os fatos e até salvar a própria vida em situações de risco iminente de morte. Além disso, o jornalista revela que aquilo que o motiva a ir atrás de uma história é o interesse público. "A matéria só é considerada boa no meu dicionário quando ela vai acrescentar alguma coisa, quando ela vai promover justiça, quando ela vai desvendar um detalhe que o interesse público precisa saber.", afirma ele.

O repórter diz ainda que nunca pensou em se aposentar, revela gostar de jogar tênis e assistir séries de TV nas horas vagas e aproveita para falar da situação do jornalismo no Brasil atual, em que as fake news realizam um desserviço à informação e até o Presidente da República ataca a atuação de profissionais da área. "É um momento crítico, delicado, de polarização, que está sendo muito desafiador, mas eu acho que a gente vai superar com jornalismo apartidário. O jornalismo precisa voltar à sua essência de valorizar os fatos pelo seu conteúdo e não pela sua origem ideológica ou partidárias.", diz Cabrini.

Leia a entrevista com Roberto Cabrini:

COLUNA LEO DIAS - O que te motivou a fazer esse livro?

ROBERTO CABRINI - Acho que chega um momento em que você quer compartilhar a sua história para que as pessoas possam assimilar experiências. Eu queria que fosse um livro intenso, um livro que realmente penetrasse fundo nos principais bastidores das grandes reportagens que eu fiz, para que pudesse acrescentar. Procurei ver com que as pessoas sentissem a história sob as minhas perspectivas e criando algo interessante e atraente de ser lido. Eu quis fazer um livro que transportasse as pessoas para as situações das mais variadas, como quando a gente foi sequestrado pelas FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) ou uma história profundamente humana, que mostra os últimos dias de uma doente terminal, uma mulher chamada Rosa, que era uma pauta que surgiu quando eu me deparei com a pergunta "O que muda na vida de um ser humano quando ele está diante da morte?", e essa matéria procura responder isso. Mas ela só foi viável quando eu descobri uma mulher, incrivelmente profunda e de muita sabedoria, que conseguia ensinar que a finitude, a proximidade da morte, pode ser uma época enriquecedora, pode ser uma época de descobertas. Eu tenho certeza que as pessoas vão sentir como se estivessem junto comigo diante de cada dificuldade.

Você apresenta 10 reportagens no livro. Qual delas te marcou mais?

Difícil escolher uma porque cada uma delas marcou por uma razão diferente, exatamente por isso que elas fazem parte do livro. Mas, se eu tivesse que escolher uma, talvez, eu escolhesse a cobertura da guerra no Iraque, porque a gente passou por situações extremamente difíceis, até que conseguíssemos o objetivo final, que era penetrar em cidades arrasadas por armas químicas, ou para que gente conseguisse desvendar uma lenda, que jamais será confirmada pelo governo de Bagdá, que soldados tinham as orelhas cortadas porque não queriam servir ao Exército. Essas matérias exigiram muito esforço físico, psicológico e muita observação para driblar os agentes de segurança de Saddam Hussein.

Você vivenciou momentos muito dramáticos, como nas guerras, por exemplo. Como se manter distante emocionalmente para poder reportar fatos tão duros?

Essa questão de manter o devido distanciamento é um processo evolutivo. Eu sempre notei que eu tinha uma inclinação, um talento para isso, mas você vai moldando essa qualidade. No começo, é difícil separar o aspecto emocional da necessidade de você ter os sentidos totalmente voltados para observar os detalhes fundamentais. Mas, com o tempo, isso foi melhorando e eu fui me tornando cada vez mais eficiente nisso e notei que os sentimentos mais agudos, na verdade, me deixam muito mais focados nos detalhes. Em situações-limite, eu fico muito mais concentrado e observador.

Nessas situações-limite é inevitável sentir medo. Como você lida com esse sentimento ao fazer uma reportagem investigativa que, às vezes, pode até custar a sua vida?

O medo é bem-vindo a partir do momento em que ele revela o limite das situações. Mas eu descobri que o medo nunca me paralisou. Pelo contrário. O medo me mantém mais firme e mais focado aos detalhes, e, exatamente, por me manter mais focado é que eu consegui resolver situações bem desafiadoras, exatamente por não perder o controle da mente. Teve uma situação em que a gente tinha filmado uma vila que foi totalmente arrasada pelas tropas inimigas do talibã, no Afeganistão, e era uma imagem que ninguém tinha, que a gente conseguiu fazer, mas fomos interceptados na saída. Se eu não tivesse mantido a calma necessária, eu não conseguiria argumentar suficientemente para evitar que a gente fosse fuzilado.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

O que te move ir atrás de uma história?

O interesse o público, aquilo que as pessoas precisam saber. A matéria só é considerada boa no meu dicionário quando ela vai acrescentar alguma coisa, quando ela vai promover justiça, quando ela vai desvendar um detalhe que o interesse público precisa saber, jamais para invadir privacidade alheia. O fiel da balança é o interesse da sociedade como um todo.

Você tem 42 anos de profissão. Já se imaginou fazendo outra coisa?

Eu comecei muito cedo. Fui o repórter mais jovem da história da Globo, com 17 anos, tendo começado um ano antes em uma rádio de São Paulo, mas nunca me imaginei fazendo outra coisa, que não jornalismo. Eu, realmente, amo intensamente o que eu faço, porque eu sei da importância disso. Eu sei que não existe uma sociedade realmente democrática se ela não tiver um jornalismo atuante. Acho que dá para medir o grau de democratização de uma sociedade pelo grau de jornalismo investigativo que ela possui. Eu acho, absolutamente, insubstituível o peso do jornalismo investigativo para uma sociedade mais justa.

Você se imagina aposentado em algum momento?

Não. Nunca pensei nisso porque eu tenho uma extrema motivação pelo jornalismo. Eu faço o que eu gosto. Acredito muito na importância do tipo de trabalho que realizo e acredito no jornalismo como maneira de compensar instituições que não funcionam, como maneira de compensar injustiças contra minorias, injustiças representadas por todas as formas de preconceito. Eu acho que o jornalismo é um grande fator equilibrante da sociedade como um todo. Se não tivesse o jornalismo, o mundo, com certeza, seria muito mais injusto.

Como você vê o jornalismo, hoje em dia, em tempos de fake news e até de agressões do próprio Presidente da República à profissão?

É um momento crítico, delicado, de polarização, que está sendo muito desafiador, mas eu acho que a gente vai superar com jornalismo apartidário. O jornalismo precisa voltar à sua essência de valorizar os fatos pelo seu conteúdo e não pela sua origem ideológica ou partidárias. Acho que é um momento que vai passar e nos vamos voltar à essência de analisar cada acontecimento pelo seu teor e não por sua procedência, pelo vício de se identificar qual é a influência ideológica dele, até porque desvios de conduta, como corrupção ou como tráfico de influência, não pertencem a esse ou àquele segmento, a esse ou àquele partido. Eles são inerentes à raça humana e assim que têm que ser encarados, sem partidarizações.

Falta algo para você realizar na profissão?

Sempre falta. Eu costumo dizer que a principal matéria é sempre a próxima. Eu tenho hoje a mesma motivação que eu tinha no começo da minha carreira. As matérias desafiam por diferentes razões, porque os processos são dinâmicos, as novidades sempre se oferecem. Eu consigo conservar em mim uma enorme motivação representada pela próxima investigação, representada pela dificuldade da próxima matéria.

Além de contar boas histórias para o público, o que o Roberto Cabrini gosta de fazer?

Eu gosto de ler muito, sempre gostei. Gosto de jogar tênis, de estar com a minha família, de assistir as grandes séries da televisão, os grandes eventos esportivos. E, atualmente, outra paixão que desenvolvi, foi a de comer carpaccio de tilápia em pedra de sal do Himalaia.

Patrícia Devoraes/Brazil News
Imagem: Patrícia Devoraes/Brazil News

Sua filha, Gaby Cabrini, também é jornalista. Como você vê o gato de ela seguir seus passos?

A minha filha sempre teve a oportunidade de acompanhar a minha carreira em vários lugares diferentes. Esteve comigo em Londres, em Nova York... Costumava me acompanhar em várias reportagens e sempre teve um fascínio muito grande por Comunicação. Eu fico feliz porque o Jornalismo e a Comunicação a fazem feliz. Nunca foi algo que eu tentasse influir. Aconteceu naturalmente. Me sinto muito feliz pelo fato de perceber que isso é um componente importante para a vida dela.

Ela pede muitos conselhos ou você os dá mesmo sem ela pedir, como todo pai?

Com certeza, ela pede. Mas eu sempre falo que ela tem que buscar os próprios caminhos. O que é inegociável em jornalismo é a necessidade de você se manter digno, transparente e de você ter muita atenção na apuração dos fatos. Fora isso, os estilos variados são muito bem-vindos. Eu acho que você tem que levar em consideração os mais diferentes estilos, mas apenas como uma referência e, depois disso, buscar seu próprio caminho.

Você é inspiração para muitas pessoas, não apenas jornalistas. Como você encara isso?

Na minha carreira, muitas pessoas me passaram experiências, muitas pessoas abriram portas para mim. Eu me sinto na obrigação de passar exemplos, de passar conhecimento para que as pessoas possam, também, fazer as melhores decisões. Acho que é uma obrigação compartilhar a minha carreira com as pessoas. Eu sinto que isso pode ajudar muita gente e não haveria sentido se eu não tivesse essa sensação muito latente em mim, de que os meus relatos podem ser muitos positivos e podem ajudar as pessoas a encontrarem melhores caminhos.

* Com reportagem de Geizon Paulo

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