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Com 4 secretários em 17 meses, Cultura é personagem figurante do governo

Regina Duarte ao assumir a secretaria de Cultura em 4 de março; ela deixou o cargo nesta quarta (20/5) - Alan Santos/PR
Regina Duarte ao assumir a secretaria de Cultura em 4 de março; ela deixou o cargo nesta quarta (20/5) Imagem: Alan Santos/PR
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

20/05/2020 12h42

O presidente Jair Bolsonaro nunca escondeu a sua intenção de rebaixar o status da área cultural em seu governo. A extinção do Ministério da Cultura e a sua transformação em Secretaria foi anunciada em novembro de 2018, pouco após a sua eleição. Desde a posse, em 1º janeiro de 2019, até hoje, em menos de 17 meses, o país já teve quatro secretários de Cultura e o órgão já foi vinculado a dois ministérios diferentes.

Nenhum dos quatro secretários deixou qualquer marca mais significativa. Todos foram figurantes de um processo de esvaziamento explícito. A saída de Regina Duarte, anunciada nesta quarta-feira (20), é apenas mais um capítulo nesta triste história.

A Secretaria Especial de Cultura nasceu vinculada ao Ministério da Cidadania. O primeiro secretário foi Henrique Pires, um jornalista gaúcho próximo ao então ministro Osmar Terra. Pires pediu demissão em 21 de agosto de 2019, após menos de nove meses no cargo.

Ele afirmou não concordar com a suspensão de edital para a TV pública com linha dedicada a produções sobre diversidade de gênero. "Eu não vou fazer apologia a filtros culturais. Para mim, isso tem nome: é censura. Se eu estiver nesse cargo e me calar, vou consentir com a censura. Não vou bater palma para este tipo de coisa. Eu estou desempregado. Para ficar e bater palma para censura, eu prefiro cair fora", disse ao sair.

Pires foi substituído em 5 de setembro pelo economista Ricardo Braga, cuja carreira foi construída no segmento financeiro - bancos e corretoras - com experiência consolidada na gestão de operações e investimentos. Antes de assumir, Braga atuava como diretor de Investimentos do Andbank Brasil. Anteriormente, foi superintendente de operações do Banco Votorantim.

Braga deixou o cargo em 6 de novembro, dois meses após assumir. No dia seguinte, o presidente Bolsonaro transferiu a Secretaria Especial de Cultura do Ministério da Cidadania para o Ministério do Turismo, comandada por Marcelo Álvaro Antônio.

O diretor de teatro Roberto Alvim assumiu, então, em 7 de novembro. Sua passagem foi igualmente curta, de pouco mais de dois meses. Foi demitido em 17 de janeiro de 2020 após o célebre discurso com referências nazistas, que o presidente chamou de "pronunciamento infeliz".

O secretário adjunto José Paulo Soares Martins assumiu duas vezes a secretaria. Primeiro, após a demissão de Pires e, posteriormente, após a saída de Alvim. Sua segunda interinidade durou apenas cinco dias. Foi exonerado em 22 de janeiro após Regina Duarte dizer que estava "namorando" com o governo.

A atriz disse que aceitava o cargo em 29 de janeiro, mas só foi nomeada em 4 de março. Uma das explicações para este longo período entre o "sim" e a posse foi a negociação do seu distrato com a Rede Globo, com quem tinha contrato havia mais de cinco décadas.

À frente da secretaria de Cultura por pouco mais de dois meses, Regina acertou a sua saída neste 20 de maio. Segundo o presidente Bolsonaro, ela irá comandar a Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Não deixou qualquer marca nesta sua breve gestão.

Infelizmente, será lembrada pela trágica entrevista à CNN Brasil, na qual minimizou as mortes e a tortura a militantes políticos ocorridas durante a ditadura militar.

Mauricio Stycer