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Ricardo Feltrin

Análise: TVs abertas desgastam e abusam da repetição de reality shows

Gabriel Cardoso/SBT
Beca Milano, Nadja Haddad e Olivier Anquier posam no cenário da 4ª temporada do "Bake Off Brasil", do SBT Imagem: Gabriel Cardoso/SBT
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

02/10/2018 05h40

Vivendo uma longa era de criatividade “zero”, as maiores TVs abertas do país abusam desavergonhadamente da repetição dos mesmos reality shows ano após ano.

Além da falta total de novidades na programação aberta, há embutido aí também uma falta de consideração para com o telespectador. Essas emissoras acham que, porque um programa deu audiência uma vez, é preciso repeti-lo nas mais diferentes versões durante anos.

A verdade é que as TVs brasileiras estão acabando com formatos internacionais de tanto usá-los em suas programações.

Começando pela líder: A Globo parece não querer largar nunca mais o “The Voice”, que não bastasse uma agora tem duas edições semanais (sem falar na chatíssima versão “Kids”).

Além disso o “Mais Você” também tem outros dois formatos, o “Super Chef” e o “Jogo das Panelas”, ambos normalmente com mais de uma edição por ano .

Sem falar nas quase duas décadas de “Big Brother”, mas nesse caso ainda é possível argumentar que o produto é rentável.

O SBT também vem abusando do estômago do telespectador com seus inúmeros reality shows gastronômicos: a atual temporada do “Bake Off” termina em dezembro e logo depois a emissora fará duas edições com celebridades.

E também vai estrear em 2019 a segunda temporada do “Júnior Bake Off”.

Na programação da TV de Silvio Santos ainda temos Eliana com a 2ª edição do também reality culinário “Minha Mulher É Quem Manda”, que vai até o Natal. Em janeiro o reality deve ter uma versão com famosos da emissora, como Celso Portiolli.

O mesmo vale para a Record que já está na 10ª temporada de “A Fazenda”, na segunda edição do “Dancing Brasil” com Xuxa só este ano, e já prepara uma nova do “Canta Comigo”, de Gugu Liberato, para o ano que vem.

E sem esquecer da Band, que continua sua meta de sugar até a morte o “Masterchef” e suas "trocentas" versões durante o ano como uma única boia salva-vidas comercial.

Além do (bom) jornalismo, a emissora parece não ter mais nada a oferecer desde que perdeu o futebol brasileiro. É uma pena.

Por incrível que pareça, é a modesta RedeTV que hoje mais investe em produtos próprios.

“TV Fama”, “A Tarde é Sua”, “Encrenca” e o futuro “Tricotando” podem até ser criticados, mas pelo menos são produtos nacionais (sem falar no ótimo programa  jornalístico e de entretenimento “Leitura Dinâmica”).

O pior é que a ausência de espírito criativo das TVs abertas está se disseminando também na TV paga. Porque ela não só repete muitos reality shows dos canais abertos, como também vive em modo "preguiça".

Como já publicamos nesta mesma coluna, os reality shows de carros são a mais nova “febre” da cara TV por assinatura.

Com poucas exceções, os números de audiência de quase todos os programas citados acima mostram que essa estratégia não é inteligente.

Mesmo o “BBB”, que pode ser considerado um sucesso comercial e de público, já perdeu mais de um quarto de seu público desde a primeira edição, no início da década passada.

Mas, quem mais perde com isso e não parece perceber, são as produtoras donas desses formatos.

Se tivessem algum bom senso, deveriam proteger suas criações da sanha comercial e da falta de critério das TVs abertas parceiras.

Mas, nesse caso, o imediatismo do dinheiro de royalties entrando deve falar bem mais alto.

Portanto, o azar todo é só do telespectador.

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