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Entrevista: "Pensei em desistir do Balanço Geral", diz Reinaldo Gottino

Reinaldo Gottino, apresentador do "Balanço Geral", da Record - Antonio Chahestian/RecordTV Comunicação
Reinaldo Gottino, apresentador do "Balanço Geral", da Record Imagem: Antonio Chahestian/RecordTV Comunicação
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

02/06/2019 06h03

Cinco anos atrás, quando foi convidado a assumir o "Balanço Geral" nas tardes da Record, Reinaldo tremeu. Embora tivesse feito muitos trabalhos como repórter e até como "âncora" na emissora, esse paulista de 41 anos teve muitas dúvidas antes de assumir um programa diário e de quase três horas de duração.

Era 2014, havia Copa do Mundo no Brasil, férias escolares e o fiasco da estreia de Gottino foi tão grande que ele confessa que entregou os pontos. Frustrado, colocou cargo à disposição da direção da Record. "O ibope não decolou", lembra.

Mas, a direção decidiu manter a aposta naquele novo rosto da TV e hoje ninguém se arrepende. No ano seguinte, 2015, o "BG" já começava a "beliscar" a Globo e a incomodar o veterano "Vídeo Show".

Mais alguns meses e o "incômodo" já tinha virado uma uma pedra no sapato global, a ponto de a emissora carioca ter trocado apresentadores do "VS", mudado quadros e até incluído um sobre "fofocas", que era o ponto alto do "Balanço Geral" (que já contava com Fabíola Reipert).

No ano passado, a eterna líder Globo já não era mais líder no horário do quadro "A Hora da Venenosa", dentro do "BG". No início deste ano, o "Vídeo Show" simplesmente acabou. Mesmo assim a Globo continua perdendo.

Não é qualquer um que pode se gabar na TV brasileira e dizer: "Derrubei uma atração da Globo". Reinaldo Gottino e Fabíola (e Renato Lombardi), ao menos, podem.

Dos 6,9 pontos de média no ano de estreia, em 2014, o "Balanço" este ano já subiu para 9,0 pontos e 20,5% de share em São Paulo (cada ponto equivale a cerca de 73 mil domicílios)

Ou seja, todo dia, 20 em cada 100 aparelhos de TV ligados na Grande São Paulo estão sintonizados em Gottino, que, pode não parecer, mas tem 1m91 e 115 quilos.

Só este ano o "BG" (como é carinhosamente chamado nos bastidores) já ficou mais de 5.550 minutos na liderança, com a Globo em segundo lugar.

Na comparação geral das três horas de programa, no entanto, o "Balanço" ainda é vice-líder, já que compete com um programa esportivo, um telejornal e "blockbusters" da emissora líder.

Caso raro na TV e no "show business", o sucesso definitivamente não subiu à cabeça desse ex-radialista, escritor, cristão evangélico (não pertencente à Igreja Universal), cuja generosidade parece não tem par na TV brasileira.

Generoso nos elogios (que ele não economiza para os colegas de programa), e também financeiramente.

Acontece que Gottino tem um hábito (ou caráter) que deixaria de cabelo em pé boa parte dos apresentadores que fazem propaganda na TV: ele divide com toda sua equipe o dinheiro que fatura diariamente com merchandising --o que não é pouco

"Eu compartilho porque eles fazem tudo comigo. Não seria justo, já que todos participam, se só eu ganhasse. O anunciante aposta no programa, e o programa não é só o Gottino", diz humilde.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista com Reinaldo Gottino, apresentador do "Balanço Geral"

Reinaldo, você chegou a fazer "freelance" em rádio aos 15 anos enquanto trabalhava de office-boy (num banco, é isso?) Por quê?

Reinaldo Gottino - Eu era apaixonado por rádio, gostava de ir dormir ouvindo um 'radinho' de pilha. Quando eu soube que uma amiga da minha irmã trabalhava em uma rádio, fui pedir imediatamente para fazer algo lá! Comecei nos fins de semana, atendendo telefone do ouvinte até que um dia o locutor faltou e eu entrei e fiz um testemunhal que era obrigatório! A paixão virou amor!

Pode-se dizer que, jornalisticamente, você é uma "cria" da rádio, certo?

Gottino - Com certeza. Eu me tornei locutor de FM, fui fazer um curso no Senac, mesmo sendo menor. Eles tinham um curso preparatório. E por causa do rádio fui fazer a faculdade de jornalismo!

Depois você passou por CBN, rádio Globo e só depois foi trabalhar na TV Gazeta. Como foi parar na rádio? Quem foi seu "padrinho"?

Gottino - Recebi nesse começo de carreira o apoio de algumas pessoas especiais. Marcio Foffu que hoje trabalha em uma rádio em Boston, Duda Baghera que sempre foi um dos maiores locutores de FM e, quando cheguei na CBN, fui recebido por Heródoto Barbeiro e Zallo Comucci. Figuras que me ajudaram na minha formação. E no que hoje é a base do meu trabalho hoje, afinal: o improviso!

Você passou cinco anos na TV Gazeta, mas ali só trabalhou em eventos esportivos... Por que acabou deixando a área esportiva? Lembro que na Record você também fez o "Esporte Fantástico" por algum tempo...

Gottino - Sou apaixonado por esporte! E vou revelar para você, deixei o esporte porque não aguentava mais trabalhar sábado à noite, domingo à tarde.

Quando bateu o cansaço, veio o convite da Record. Hoje participo dos eventos esportivos, como Pan e Olimpíada, como narrador! O "Esporte Fantástico" foi uma experiência incrível.

Você já está há cinco anos no "Balanço Geral". O programa com você demorou um pouco até engrenar e se tornar uma "pedra" no sapato da Globo. Como foi esse processo?

Gottino - Eu cheguei a entregar os pontos para a direção! Nos primeiros meses não fomos bem. Coloquei o cargo à disposição! Era 2014. Ano de Copa, eleições e tinha férias escolares no meio, mas recebi todo apoio da emissora e eles sabiam que ia dar certo!

A que você atribui os bons índices de audiências do "BG"? Porque não tem pautas bombásticas, noto que não há muita notícia ou imagens apelativas, crimes bárbaros... Que são, afinal, a matéria-prima desses tipos de programas...

Gottino - O sucesso do programa passa por uma somatória de fatores! Fabíola Reipert e Renato Lombardi comandam comigo o programa. Eles são maravilhosos, e nossa química, nosso entrosamento, é algo difícil de explicar.

Temos também uma retaguarda forte. Meu diretor, Rafael Perantunes, tem muita experiência em programas de entretenimento e jornalismo. Caio Piccollo e Ronald Johnston, editores-chefe e executivo, preparam um jornal priorizando o ineditismo e o interesse do público. A equipe toda é fora de série!

Pausa na TV: No meio de tudo isso você ainda se enfiou a escrever um livro, a biografia da empresária espalhafatosa conhecida como "Sylvia Design"... como é que você foi parar nisso? O que te interessou nela?

Gottino - Eu gosto de escrever, já tive coluna em jornal, já editei revistas e estou escrevendo nesse momento um livro. Mas não posso dar detalhes. Conheci a Sylvia em um evento, me contaram a história dela e ela me disse que queria registrar a história da vida dela em livro.

Eu achei incrível e foi emocionante. Nos Estados Unidos, a história dela já tinha virado filme. Ela é batalhadora, empreendedora e criou uma marca, transformando-se num 'case' de sucesso.

Em que momento caiu a ficha e você percebeu que o seu programa, seu telejornal estava incomodando a emissora líder, a Globo? Você lembra?

Gottino - 'A Hora da Venenosa' tinha 15 minutos apenas e começamos a ficar um, dois, depois três minutos em primeiro lugar; foi quando levamos a ideia de seguir até as 3 da tarde. Não deu outra. Quando a gente se deu conta a gente já estava ganhando na semana, depois no mês, e depois o ano todo

O Balanço Geral foi o primeiro programa em TV que você foi o titular, certo? Como foi a mudança de repórter para apresentador?

Gottino - Eu já tinha feito o 'SP Record' e o 'Record Notícias'. Mas,não me sentia titular desses programas. Foram experiências boas que foram me aperfeiçoando para esse momento. Agora, com o "Balanço Geral", foi diferente!

É comum na TV ver apresentadores 'policialescos' defendendo que "bandido bom é bandido morto". Mas, você já disse que não concorda... Por quê?

Gottino - Sou a favor da vida. Não desejo a morte de ninguém e não vou usar o espaço que tenho na TV para defender mais violência. Acho que devemos pagar o mal com o bem e não o mal com o mal. Sou contra o discurso do bandido bom é bandido morto.

Temos que recuperar pessoas e não matar pessoas, ainda mais em um país sem oportunidades. Violência gera violência! Toda pessoa inteligente será a favor de medidas que recuperem os presos. Não pode ficar do jeito que está, em que a pessoa sai pior.

Hoje mais de 80% dos presos voltam a cometer crimes. Isso é uma burrice. O preso que não é recuperado pode nos alcançar amanhã.

Esse discurso está ultrapassado! Não estou defendendo bandido, acredito que criminosos precisam pagar suas penas com uma severa lei, mas que seja algo que consiga gerar frutos para nossa sociedade e não que aumente nosso problema. Penso em algo melhor para todos!

Como foi o processo de ter de dividir a bancada com a Fabíola?

Gottino - No começo eu não imaginava o que ia dar certo. Fiquei preocupado. Fabíola me assustava um pouco. Mas, quando começamos a trabalhar juntos, em dois dias eu já estava encantado com a amizade dela. Descobri uma pessoa incrível, divertida, e, acima de tudo, leal. Uma pessoa correta. Hoje somos grandes amigos fora da TV também.

Afinal vocês conseguiram fazer a líder Globo modificar sua grade, mexer nos horários e até criar um quadro de "fofocas" semelhante ao "Hora da Venenosa" com o objetivo de combater seu programa. Depois desistiu e extinguiu um programa de mais de três décadas, o "Vídeo Show". Isso deve dar um certo orgulho, né?

Gottino - Não vou mentir pra você. É muito bom. É uma sensação incrível ser líder de audiência na TV em uma praça como São Paulo. Estamos fazendo história a cada dia. Nós temos essa noção de que o que está sendo feito é algo muito grande. Muito importante e que ficará para sempre.

Ao mesmo tempo você está ciente que o sucesso de vocês acabou por fazer muita gente ser demitida.

Gottino - Sim, mas o sucesso do programa também fez muita gente ser contratada aqui do nosso lado. O número de colaboradores do 'Balanço' hoje é muito maior do que cinco anos atrás.

Você ainda posta muita coisa de futebol nas redes sociais, como palmeirense fanático que é. Não sente falta de cobrir esportes de novo?

Gottino - Eu adoro esporte, bato minha bola todo sábado, assisto aos jogos do meu time e estou pronto pra cobrir qualquer evento. Fiz a Olimpíada no Rio e, se tiver que fazer o Pan em Lima, no Peru, em agosto, já estou pronto.

Pergunta pessoal: eu soube que você faz "merchandising", mas divide com seus colegas de estúdio parte do que ganha com ele. É verdade? Se sim, por que faz isso? Que me lembre, é o único ou um dos únicos a fazer isso...

Gottino - Eu compartilho com eles porque eles fazem o programa comigo. Não seria justo, já que todos participam, e só eu ganhar. O anunciante aposta no programa e o programa não é só o Gottino.

Você não acha que o "Balanço" também pode acabar virando uma "prisão" (de sucesso). Ou você não tem mais ambições e não gostaria de apresentar mais nada? Falta alguma coisa na sua vida?

Gottino -
Tenho vários projetos em andamento. Fui convidado para uma série de palestras em universidades, vou dar um curso de comunicação neste mês de junho e, na TV, estou super satisfeito com o programa, mas penso em um programa de entrevista. Gosto de tirar algo diferente nas conversas.

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