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Mauricio Stycer

Jornalismo ao vivo ainda é a melhor arma da TV para se mostrar útil

Mauricio Stycer

16/03/2019 05h01

A apresentadora Gloria Vanique ancorou a cobertura da Globo sobre a enchente em São Paulo

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Walter Clark (1936-1997) dirigia a Rede Globo havia três meses, em fevereiro de 1966, quando uma enchente provocou danos terríveis ao Rio de Janeiro. O executivo, então, determinou que a emissora interrompesse a sua programação normal para se dedicar à cobertura dos danos causados pela chuva.

Este episódio integra os anais da Globo menos pelos resultados de audiência alcançados e mais pelo retorno de imagem que conseguiu junto ao público. Inaugurada em abril de 1965, a emissora era, então, a menos assistida na cidade, atrás das TVs Rio, Excelsior e Tupi. Os três dias de cobertura intensiva da enchente ajudaram a Globo a conquistar a simpatia dos espectadores.

Mais de 50 anos depois, a lição daquele episódio permanece válida. Não existe nada mais impactante para o espectador do que jornalismo feito ao vivo nos momentos em que as notícias explodem.

Dois episódios esta semana ofereceram a oportunidade para as emissoras mostrarem a razão real de estarem no ar. Entre a noite de domingo (10) e a manhã de segunda-feira (11), as chuvas que castigaram São Paulo causaram 12 mortes e estragos incalculáveis. Na manhã de quarta-feira (13), dois atiradores atacaram uma escola em Suzano (SP), matando oito pessoas antes de se suicidarem.

Globo e Record entenderam o momento e se destacaram na cobertura de ambas as tragédias. Na segunda-feira, a primeira derrubou todos os seus programas matinais e alguns vespertinos para permanecer no ar, de forma contínua, com o seu jornalismo. A segunda, que já faz isso com alguma frequência, também cobriu exaustivamente a enchente.

Como informou o site Notícias da TV, a Globo foi recompensada com índices de audiência recordes. O SBT só alterou a sua grade às 15h, depois que as duas concorrentes voltaram à programação normal. A emissora de Silvio Santos exibiu a cobertura das chuvas dentro do programa "Fofocalizando".

Na quarta-feira, novamente, a Globo alterou a sua programação em São Paulo e tirou do ar várias atrações vespertinas para ficar, ao vivo, com jornalismo. A Record, igualmente dedicada, festejou a melhor audiência da história do "Balanço Geral" e o sucesso do "Cidade Alerta", que ficou na liderança por 32 minutos. A Band cancelou seu programa esportivo para permanecer com o jornalismo. Hesitante, o SBT interrompeu a cobertura jornalística que fazia pela manhã para exibir o infantil "Bom Dia & Cia". À tarde, novamente, abriu uma janela em seu programa de fofocas para o repórter Roberto Cabrini entrar ao vivo de Suzano.

O ponto fora da curva nesta cobertura coube à Band. No início da tarde, o programa de Cátia Fonseca, "Melhor da Tarde", escalou um repórter para entrar ao vivo entrevistando Otavio Mesquita, com a missão de mostrar os dados causados pela chuva na mansão do apresentador. Um erro em matéria de prioridades.

Num momento em que o público é distraído por tantas outras opções de entretenimento, a TV aberta mostra a sua utilidade quando faz algo que diz respeito diretamente a quem está assistindo. Mais uma vez esta lição foi cristalina.

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Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.