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Faro se preocupou com audiência em tributo a Gugu. Qual é o problema?

A certa altura do programa deste domingo, ao vivo, Rodrigo Faro quis saber como estava a audiência - Reprodução/Record TV
A certa altura do programa deste domingo, ao vivo, Rodrigo Faro quis saber como estava a audiência Imagem: Reprodução/Record TV
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

25/11/2019 12h48

O Twitter está em polvorosa com a descoberta de um vídeo que mostra Rodrigo Faro, da Record, aparentemente perguntando como está o Ibope do seu programa. A tela está partida e, enquanto exibe um vídeo de um lado, o apresentador (sem áudio) parece questionar alguém: "Como é que está a audiência?"

Faro está sendo duramente criticado pelo fato de fazer esta pergunta durante a exibição de um programa inteiramente dedicado à memória de Gugu Liberato (1959-2019). Muitos fãs enxergaram hipocrisia do apresentador ou entenderam a atitude como um gesto desumano naquele momento.

Como é possível Faro ter se emocionado várias vezes ao lembrar de Gugu se estava preocupado com o Ibope? No fundo, esta é a questão que está em discussão.

Em primeiro lugar, devo dizer que não vejo incompatibilidade nenhuma entre estar emocionado e se preocupar com a audiência do seu programa. Qual é o problema, realmente?

Na realidade, vejo aí uma questão de fundo moral nesta tentativa de transformar a preocupação com o Ibope num momento de luto por Gugu em algo ruim, um "pecado". Como se existisse uma preocupação sadia e uma ruim. Ora, a preocupação com a audiência é a mesma, sempre.

Gugu, aliás, com seu profundo conhecimento sobre televisão, é um dos muitos apresentadores que se tornaram dependentes do aparelhinho que mede a audiência minuto a minuto. Ele falou sobre isso abertamente mais de uma vez. E não duvido que tenha acompanhado em tempo real, como se diz, várias coberturas dramáticas que exibiu no ar, como a da morte dos integrantes do Mamonas Assassinas num acidente de avião.

Celso Portiolli, que apresentou ao vivo o "Domingo Legal", também homenageando Gugu, não se preocupou com o Ibope da atração? O fato de estar emocionado impediu que perguntasse ou fosse informado nos intervalos sobre a audiência? Existe algum pecado nisso, caso tenha ocorrido?

E não deixa de ser uma ironia que esta cobrança sobre Faro esteja ocorrendo justamente no Twitter. Costumo brincar dizendo que esta rede social reúne um número enorme de "diretores de programação" de TV. São fãs que passam o dia comentando a grade das emissoras, avaliando a audiência de programas e sugerindo mudanças.

Pessoalmente, acho que há uma preocupação excessiva com audiência. Os números do Ibope são determinantes para quem trabalha em televisão - audiência traz publicidade e publicidade paga as contas. Mas isso não deveria interessar tanto nem ao crítico de TV nem ao espectador. Queremos bons programas.

Ou como disse Hebe Camargo (1929-2012) uma vez ao próprio Gugu: "Posso te dar um conselho como mãe? Não sofra tanto por um negócio de audiência, meu amor. Você tem o seu programa há tantos anos, é tão querido. Quando um programa dá dois ou três pontos a menos, você tem uma audiência magnífica. Não tem que sofrer por causa de dois, três pontos que o Faustão ganha. De repente, no outro domingo, o público acha que o seu programa está melhor".

Atualização às 17h: O SBT orientou a sua assessoria de comunicação, a Spokesman, a não divulgar para a mídia os números de audiência da emissora no final de semana. A Record tomou atitude idêntica. Segundo as empresas, não há motivos para se vangloriar dos resultados alcançados com a cobertura da morte de Gugu Liberato.

Os números estão disponíveis em vários sites que fazem esta divulgação, como o Notícias da TV, por exemplo (veja aqui os dados de domingo).

A decisão mostra que as duas emissoras consideram "pecado" informar dados positivos obtidos com a cobertura de uma tragédia específica, a de Gugu, mas não costumam ter o mesmo cuidado em outras situações. Inúmeras coberturas feitas em ocasiões trágicas, que envolveram mortes e dramas pessoais, mereceram divulgação de números do Ibope por parte de SBT e Record. Dois pesos e duas medidas. Hipocrisia, em outras palavras.

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