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Silvio Santos ironiza acusação de racismo e diz que não é homofóbico

Silvio Santos durante o quadro Quem Você Tira?, do programado último domingo (8) - Reprodução/Twitter
Silvio Santos durante o quadro Quem Você Tira?, do programado último domingo (8) Imagem: Reprodução/Twitter
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

15/12/2019 23h42

Foi preciso esperar uma semana para ouvir um comentário de Silvio Santos sobre o episódio que incendiou as redes sociais - a sua decisão de ignorar uma cantora negra escolhida pelo público e premiar uma outra, branca, que ele elogiou a beleza, durante um concurso no "Programa Silvio Santos".

Mas, bem ao estilo do SBT, o comentário de Silvio foi bem pouco esclarecedor. A conversa ocorreu neste domingo (15) no "Jogo dos Pontinhos". O apresentador fez piada com a situação:

Silvio: Disseram aí na internet que eu não quis que uma cantora cantasse porque ela é negra. Então, eu sou homo...
Lívia: Racista
Silvio: Homossexual ainda não. Que eu sou homofóbico!
Patrícia: Racismo. Falam que você é misógino, que é uma palavra que eles nem sabem o que é...
Silvio: Misógino é homem que não gosta de mulher.
Patrícia: Mas você gosta. Só tem mulher aqui.
Silvio: Racista
Patrícia: Posso falar? Eu assisti e não achei nada demais. Ele sempre escolhe quem ele gosta mais. Ele pede para o pessoal votar, mas a decisão é de quem? Dele!!! Então, não é porque ela é negra...

A conversa chama a atenção por não esclarecer nada, como ocorreu ao longo de toda a semana. No que parece ser uma prática deliberada, Silvio e o SBT exercitaram a arte de ignorar ou fugir do assunto.

Nem seria necessário contar com um especialista em mídias sociais para saber, já no domingo (08), que a atitude de Silvio em seu programa foi entendida por muita gente como racista. Ou seja, tratava-se de um assunto seriíssimo.

A repercussão do caso Jennyfer tornou-se um dos assuntos principais na segunda-feira (09). A primeira nota sobre o assunto publicada pelo UOL, às 10h09, traz a seguinte informação: "O UOL entrou com contato com o SBT, mas a emissora respondeu que não vai se pronunciar sobre o caso".

Não é a primeira vez que a área de comunicação do SBT age assim. Ao contrário, a empresa nunca comenta polêmicas envolvendo Silvio Santos. O apresentador não vê necessidade de esclarecer nada. Entende que todo barulho provocado é bom e, quando necessário, faz comentários em seus programas, dias ou semanas depois de o problema ocorrer.

O vídeo com a íntegra do quadro, que poderia ajudar muita gente a entender o que aconteceu, de fato, só entrou no site do SBT na terça-feira (10), mais de 24 horas depois de ir ao ar.

Nesta mesma terça, pela manhã, o diretor artístico do SBT, Fernando Pelegio, recorreu ao Twitter para desabafar. "Saco cheio dessa patrulha praguejando ódio sobre o Silvio Santos. Não assistem o programa, não entendem as piadas (ou fazem questão de interpretar com viés), querem ser descolados e acabam falando o que não entendem. Ódio pelo ódio".

Não foi o comentário de um executivo, como pode-se ver, mas de um fã. Para piorar, na sequência Pelegio escreveu: "Foi disseminando ódio sobre empresários, criando luta de classes, que o Lula foi eleito e nos levou a essa década perdida. Ódio não leva a nada. Já caímos nessa num passado recente".

Pelegio apagou esta mensagem, mas ela expressa que, na visão de um importante diretor do SBT, Silvio Santos está sendo criticado nas redes sociais por culpa do ex-presidente Lula. Para quem critica o ódio, não parece uma visão muito pacificadora.

Na quinta-feira (12), dia do 89º aniversário de Silvio, o deputado federal Fábio Faria (PSD-RN), casado com Patrícia Abravanel, assumiu a função de porta-voz informal da família. Publicou um artigo na Folha sobre polêmicas envolvendo o sogro, mas sem mencionar diretamente o ocorrido quatro dias antes.

Primeiro, sugeriu que todos os problemas não passam de brincadeiras: "Silvio Santos faz brincadeiras que arrancam gargalhadas de um auditório lotado e de milhões de telespectadores, mas podem desagradar alguns e dar margem a interpretações e julgamentos diversos".

Acusou "jovens que talvez nunca tenham assistido ao Programa Silvio Santos (...) e torcem por um deslize de Silvio para lançar sobre ele críticas pesadas que são replicadas num efeito manada."

Referiu-se a uma polêmica de duas semanas atrás, a cobertura tímida que o SBT fez do velório e enterro de Gugu Liberato. "Silvio determinou que não fossem expostas imagens do corpo do apresentador, da comoção dos familiares e amigos, não admitiu o que considera exploração de uma tragédia pessoal em troca de audiência. Essa foi sua forma autêntica de homenagear o amigo. Por isso, sofreu todo tipo de acusação, as mais fantasiosas e cruéis", escreveu Faria.

O genro do apresentador ainda confirmou que Silvio não vê necessidade de esclarecer os seus atos: "Silvio não usa redes sociais, onde palavras odiosas emergem e os críticos de ocasião sobem sozinhos ao ringue contra o maior apresentador da TV brasileira. Sempre defende a liberdade de expressão, não questiona e não permite que respondam quando ele é criticado. Silvio apenas aceita. Não tolhe, não censura".

Equivocadamente, o deputado considera que clarificar os seus gestos e palavras seria uma forma de censura. Não. Isso é comunicação. E é estranho que justamente uma empresa deste ramo não considere importante se comunicar, quando necessário, com a sociedade.

Mauricio Stycer