PUBLICIDADE
Topo

Apagar o passado? Combate ao racismo afeta reprises na TV

O sexteto de "Friends", série exibida originalmente entre 1994 e 2004 - Reprodução / Internet
O sexteto de "Friends", série exibida originalmente entre 1994 e 2004 Imagem: Reprodução / Internet
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

14/06/2020 05h01

A morte do ex-segurança George Floyd, assassinado por asfixia por um policial branco na cidade de Minneapolis, provocou comoção mundial. Protestos contra o racismo e a violência policial se espalharam pelos Estados Unidos e por diversas cidades de muitos outros países.

Em Bristol, na Inglaterra, manifestantes derrubaram a estátua de Edward Colston, um comerciante local que fez fortuna com o tráfico de africanos para realizar trabalho escravo nas Américas. A estátua foi erguida em 1895. Por temer que algo parecido possa ocorrer em São Paulo, a estátua de Borba Gato ganhou proteção policial.

Na esteira deste e de outros muitos protestos, voltou à tona um debate muito importante: o que fazer com criações antigas (filmes, séries, obras de arte, homenagens) que apresentam conteúdo racista ou reiteram preconceitos?

Nesta semana, a HBO retirou temporariamente do catálogo do seu serviço de streaming o filme "...E o Vento Levou". O longa-metragem de 1939 sobre a Guerra Civil americana, ganhador de oito estatuetas do Oscar e uma das maiores bilheterias de todos os tempos, é muito criticado por sua representação de escravos conformados e proprietários de escravos heroicos.

Já Marta Kauffman, uma das criadoras de "Friends", exibida entre 1994 e 2004, reconheceu esta semana a ausência de diversidade na série. Ela disse que teria feito escolhas diferentes no passado se tivesse o conhecimento que tem hoje sobre o assunto. Há pouco tempo, Lisa Kudrow, a Phoebe da série, fez observação semelhante, dizendo que hoje seria impossível uma série assim, com um elenco exclusivamente branco.

Como lidar com estes problemas?

No caso da estátua, o prefeito de Bristol, Marvin Rees, anunciou que ela será recuperada e exibida ao lado de cartazes dos protestos recentes para que a história da escravidão e a da luta pela igualdade racial possam ser melhor compreendidas.

Já a HBO informou que o filme será disponibilizado novamente na plataforma de streaming, em data ainda não definida, junto com uma discussão de seu contexto histórico. Mas nenhum corte será feito: "Porque fazer isto seria como dizer que estes preconceitos nunca existiram", disse a empresa. Apagar filmes não vai apagar o racismo, observou o crítico Roberto Sadovski.

Acho as duas atitudes corretas. Apagar o passado não é a melhor forma de evitar que ele se repita no presente ou no futuro. O mesmo vale para "Friends": a falta de diversidade na série é um registro histórico. Assisti-la hoje com um olhar crítico é necessário, mas "cancelá-la" é uma bobagem.

Stycer recomenda
UOL Vê TV #31: Saída de grandes figuras da Globo abre possibilidades para novas produções

Streaming já tem mais ibope que TV paga no Brasil

Feltrin: Mario Frias nem assumiu e já está sendo frito como Regina

Chico Barney: Fim da reprise do futebol é golaço da Globo

Melhor da semana
Porta dos Fundos "desenha" qual é o drama da representação racial na mídia

Pior da semana
"Cidade Alerta" recebe lição de jornalismo da filha de homem assassinado

Uma versão deste texto foi publicada originalmente na newsletter UOL Vê TV, que é enviada às quintas-feiras por e-mail. Para receber, gratuitamente, é só se cadastrar aqui.

Siga a coluna no Facebook e no Twitter.

Mauricio Stycer