Topo

Coluna

Ricardo Feltrin


Análise: Por que a Record fatura muito mais e perde no ibope para o SBT?

Adriana Araújo e Celso Freitas comandam o "Jornal da Record" - Reprodução/Record TV
Adriana Araújo e Celso Freitas comandam o "Jornal da Record" Imagem: Reprodução/Record TV
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

04/11/2019 11h07

Na semana passada esta coluna antecipou com exclusividade os dados consolidados de audiência da TV brasileira no mês de outubro.

Os dados mostram que nas 24 horas diárias a Globo segue líder no país com 13,1 pontos.

Ultimamente atacada e ameaçada pelo governo federal (como foi também por alguns anteriores), a emissora da família Marinho sozinha ainda dá mais audiência que SBT (5,2), Record (4,6), Band (1,6) e RedeTV (0,5) somadas.

Quem me intriga, porém, é a "eterna" terceira colocada, a Record, que teve no mês passado o menor ibope de 2019.

Do ponto de vista estrutural, a emissora está numa ótima situação.

Enxuta, sem muitas dívidas, quase sem processos trabalhistas onerosos, deve faturar este ano R$ 1,7 bilhão e vem fazendo grandes investimentos no jornalismo, em tecnologia e em algumas contratações.

Também mexeu em sua grade de programação, ampliando as transmissões ao vivo.

Apesar disso, está cada vez mais distante do SBT, a segunda colocada, que fatura R$ 700 milhões a menos e tem sua grade estagnada há anos.

Sim, Silvio mexe ocasionalmente aqui e ali, mas até nisso ultimamente tem cometido erros.

Além disso, o SBT não investe praticamente nada em programas. O de Maisa Silva já foi um milagre (bem-sucedido, aliás).

A programação do SBT é a mais previsível do mundo: jornalismo gonzo pela manhã; dramaturgia mexicana de qualidade duvidosa à tarde; e novelas infantojuvenis à noite.

Nos fins de semana, programas de auditório no lugar das novelas mexicanas. Seu jornalismo é há anos um zero à esquerda. Irrelevante (culpa do próprio Silvio).

E mesmo com uma concorrente nesse nível, a Record consegue fracassar e ficar em terceiro lugar em São Paulo e no PNT.

Por quê?

Porque tem uma igreja no meio do caminho

Infelizmente só a emissora da Barra Funda finge não saber o motivo disso.

Ela não vai chegar à vice-liderança de ibope (o que dizer então do 1º lugar sonhado na década passada por seus dirigentes) enquanto não resolver seu maior problema: a Igreja Universal do Reino de Deus.

Não estou fazendo juízo de valor sobre a religião desenvolvida por Edir Macedo, a qual tenho apreço e respeito. Já vi muita gente mudar de vida (para melhor) depois que passou a frequentar a Universal.

Estou falando, isso sim, é da situação paradoxal em que a empresa Record escolheu viver, ao depender financeira e editorialmente de uma entidade religiosa.

Vale sempre repetir que não há nenhuma ilegalidade nisso. Dezenas de empresas, entidades e igrejas alugam horários em emissoras de TV e não há lei proibindo.

A primeira parte da dependência da Record é obviamente compreensível.

Ninguém sabe ao certo, mas estima-se que a igreja pague de R$ 300 milhões a R$ 400 milhões por ano à emissora pela compra de boa parte das madrugadas. É uma montanha de dinheiro que faz MUITA diferença em qualquer balanço.

No entanto, a solução também é o problema: o dinheiro é importante, mas assim que entra no ar a programação da Universal derruba a Record para perto do traço de audiência.

É justamente nessa faixa —da 0h às 6h— que o SBT abre larga vantagem na audiência, o que fará muita diferença depois, na média das 24 horas do dia.

O segundo problema é também oriundo da Universal: a influência que ela exerce em toda a programação e, em especial, no jornalismo.

Basta alguma coisa aparecer na tela da Record fugindo da "linha" ou dos dogmas da igreja que vocês podem ter certeza que alguém —a mulher de um pastor, um pastor, um obreiro, um bispo, qualquer um da igreja— vai passar a mão num telefone e criar uma bola de neve de rancor e desaprovação.

Bolas de neve que não poucas vezes terminaram em alguém demitido na Barra Funda.

Claro que o dinheiro é importante para qualquer empresa, mas o profissionalismo ainda deve estar à frente disso —até mesmo porque credibilidade e seriedade não se compram com dinheiro nenhum.

Nunca vi uma pesquisa a respeito, mas desconfio que a percepção do telespectador comum com a Record não deve ser boa nesse sentido: o da credibilidade.

Além de derrubar a audiência, a Universal também impede a Record de ser gerida como uma empresa isenta, profissional, séria, dedicada a crescer por seus próprios meios. Como qualquer companhia ou veículo.

Investimento em "Jornalismo"

Meses atrás, a direção da Record fez festa para anunciar sua nova programação, com direito a 14 horas diárias de jornalismo.

No entanto, se uma tragédia ou fato mundial ocorrer de madrugada (torçamos para que não) a gente provavelmente vai ter de assistir em outras emissoras, porque a "superjornalística" Record estará passando programas religiosos.

Não sou parvo de imaginar que R$ 300 milhões anuais não façam diferença para a Record (como para qualquer empresa, de qualquer tamanho).

Mas, essa dependência é também a causa de todos os problemas da Record como veículo de comunicação e de entretenimento.

É o que tira toda a sua credibilidade. É o que a torna não isenta: o fato de ser comandada por uma entidade religiosa. Seus principais dirigentes são bispos, pastores ou fiéis da igreja.

Não estou dizendo que fiéis da igreja deveriam ser proibidos de trabalhar na emissora. Mas jamais deveriam ser seus comandantes.

O curioso é que, como entidade religiosa, a Universal não precisaria da Record. É um organismo vivo, enorme, em expansão, bem-sucedido e bilionário. Diz ter 7 milhões de fiéis no Brasil e mais de 1 milhão no exterior.

Para a Universal, o horário ocupado na Record não faz grande diferença. Isso se fizer alguma.

Notem que ocorre algo parecido no SBT, mas que não compromete a emissora: provavelmente 25% ou 30% do R$ 1 bilhão que a emissora de Silvio Santos fatura anualmente devem vir de publicidade paga por empresas do próprio Grupo Silvio Santos.

Grosso modo, portanto, o Grupo SS é um tipo de "Igreja Universal" do SBT.

Só que nesse caso não há interferência editorial ou de conteúdo. Porque o grupo é uma companhia, não uma religião com seus dogmas e preferências.

A verdade dói, mas deve ser dita: enquanto a Universal estiver ligada umbilicalmente à Record, economicamente e em sua grade de programação, a TV não vai decolar nem como empresa, nem como emissora de TV e nem em qualquer outro tipo de mídia que porventura se envolva.

Já perdeu anos atrás, inclusive, a chance de fazer uma parceria vistosa com a CNN justamente pela ligação com a igreja. A CNN "reprovou" a emissora no quesito editorial.

Claro que a Record pode ocasionalmente aqui e ali acertar alguma coisa: um quadro, um programa, uma novela que vá bem em audiência.

Mas, temo que o 2º lugar vá ficar cada vez distante. O 1º, então, sem comentários.

Ricardo Feltrin no Twitter, Facebook e site Ooops

Ricardo Feltrin