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Análise: Coronavírus "nocauteou" grades de TVs abertas e fechadas

07/03/2020: Record apresenta o elenco de seu novo domingo; pandemia colocou fim à mudança   - Reprodução / Internet
07/03/2020: Record apresenta o elenco de seu novo domingo; pandemia colocou fim à mudança Imagem: Reprodução / Internet
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

03/04/2020 00h45

Nenhuma empresa podia prever os efeitos devastadores da pandemia de coronavírus, que já infectou mais de 1 milhão de pessoas no mundo e matou mais de 50 mil. Com as emissoras de TV não foi diferente.

A doença desmontou a estratégia e os planos de canais abertos e fechados justamente em março, mês em que a maioria das emissoras prepara novidades e mudanças em suas grades.

Nenhum canal está sendo poupado. Quase todos estão vivendo na base do improviso e todos, sem exceção, desistiram de fazer mudanças, as adiaram ou voltaram atrás nas já feitas.

Tudo isso é mais visível já que, com a quarentena, o total de TVs ligadas no Brasil explodiu como nunca antes havia ocorrido.

Hoje quase metade das TVs no país chegam a ficar ligadas 24 horas por dia, como este colunista antecipou esta semana em seu programa semanal no canal do UOL no YouTube.

TV paga: GloboNews x CNN Brasil

Os canais fechados aparentemente estão sofrendo menos, já que possuem um enorme acervo. Além disso já tinham, digamos, a "vantagem" de terem funcionado sempre na base das reprises diárias.

Lembrem-se que boa parte dos canais pagos, inclusive os ditos educativos ou científicos, chega a repetir até quatro vezes por dia os mesmos programas.

Só que, com a pandemia, canais como Discovery, History, Multishow, GNT, Comedy Central e outros foram obrigados a tirar o pé do acelerador e suspenderam todas as novas produções. Sem previsão de retomá-las.

Já a MTV deu sorte. Seu maior sucesso atual, o "De Férias com o Ex", está com a nova temporada totalmente gravada (em Jericoacoara) e a emissora manteve o plano de lançá-la ainda este semestre.

Mas os destaques da TV por assinatura sem dúvida ficam para os dois principais canais noticiosos.

Primeiro, a GloboNews, que se firmou como o canal mais visto do país na TV por assinatura. Algo que não ocorria havia 23 anos, como mostrou o "Notícias da TV".

Em segundo a recém-nascida CNN Brasil. Tanto do ponto de vista positivo como negativo, é bom dizer.

De um lado ela nasceu quase ao mesmo tempo em que a pandemia, quarentena e explosão de TVs ligadas.

Ou seja, o que não falta agora —infelizmente— é matéria-prima para um canal jornalístico 24 horas.

O lado negativo é que, após passar mais de um ano fazendo tanta publicidade e estardalhaço, o nível de expectativa de público, crítica e também pressão interna se elevaram a níveis elevadíssimos.

Resultado óbvio: qualquer erro, tropeção, discussão ou fato interno se torna imediatamente notícia com imensa repercussão.

E quase nunca benéfica, como mostrou o ruidoso entrevero envolvendo Gabriela Prioli e Reinaldo Gottino, no último fim de semana.

No caso das TVs abertas, porém, a situação é bem pior. Vamos uma a uma

Globo

A Globo, para variar, está numa posição mais cômoda que as demais em todos os sentidos. Especialmente do ponto de vista de programação.

Pode se dar ao luxo de interromper todas as suas novelas e, se for o caso, passar meses ou até anos (batam na madeira) reprisando compactos de boas novelas antigas em todas as faixas. Aliás, o que ela está fazendo neste momento em todo seu horário nobre.

No entanto, até mesmo a líder está sendo e ainda vai ser bastante afetada em sua linha de shows.

A Globo já desistiu de lançar novos programas (como o de Angélica, por exemplo), e que já estavam em fase de produção. Está suprindo parte do horário desses programas com seu bom jornalismo.

Ela está colhendo os frutos desse núcleo, aliás, e a audiência é prova disso: todos os telejornais da casa dispararam em audiência desde o começo da crise na saúde, como esta coluna antecipou na semana passada.

Mesmo assim ela também vai sofrer um monstruoso impacto econômico com a pandemia.

Lembrem-se que o Grupo Globo acabou de investir quase US$ 50 milhões num gigantesco complexo de estúdios no Rio.

A direção da emissora já previa que o ano não seria lucrativo mesmo, devido a investimentos como esse. Agora então?

Além disso muitos anunciantes também estão paralisados: o mercado publicitário está sofrendo enorme baque.

Record

Pior situação está a Record. A emissora teve a falta de sorte de investir milhões e mudar sua grade radicalmente este ano.

Primeiro investiu pesado em inovações tecnológicas (como um 'ciclópico' e caríssimo "servidor de vídeos" instalados na Barra Funda, capaz de receber VTs de qualquer afiliada quase que em tempo real, entre outras funções).

Depois porque este ano decidiu ampliar o espaço do seu jornalismo, que, no entanto, não tem e nunca teve grande feedback do telespectador.

Tanto que a despeito dos milhões investidos, a emissora não consegue ultrapassar a programação engessada do SBT. Já falamos sobre isso várias vezes nesta coluna.

Mas, o maior azar da Record mesmo foi estrear uma nova programação de domingo ao mesmo tempo em que o coronavírus desembarcava no país.

Resultado: sem tempo ou espaço para fazer ajustes, a tal nova programação de domingo foi nocauteada e já não existe mais. O recuo foi inevitável.

SBT

O SBT está numa situação bastante complexa, nada confortável e que tende a se agravar nas próximas semanas ou meses.

Problema maior 1: entre suas maiores estrelas estão idosos; problema maior 2: preenche suas manhãs com programação infantil, que lhe dá até uma boa audiência, mas quase zero dinheiro devido às restrições à publicidade direcionada a esse público.

Sua maior estrela e ímã de publicidade, Silvio Santos, está fora do ar indefinidamente. O mesmo vale para Raul Gil e Carlos Alberto de Nóbrega.

Ratinho, outrora uma espécie de arrimo publicitário e de audiência, vê a cada dia seu prestígio minguar junto ao público e à crítica.

Merecidamente, aliás, e resultado de uma inconsequente bajulação e chapa-branquismo governamental —como analisou corretamente o colunista Chico Barney, do UOL.

Outros apresentadores do SBT, como Celso Portiolli e Eliana, também estão tendo de dar piruetas, já que estão no ar sem plateia.

Estão se saindo muito bem, é verdade, mas a plateia sempre foi a alma desses programas (assim como o de Silvio).

As novelas do SBT também não atravessam grande fase, e a pandemia também colocou fim em realities lucrativos como o "Fábrica de Casamentos" e o "Bake Off".

Band

A Band, por sua vez, também andou mexendo bastante na programação, especialmente a das manhãs.

Teve o bom senso e a sorte de investir em atrações em que o jornalismo poderia cair como uma luva em casos emergenciais como o atual, mas infelizmente está perdendo essa oportunidade.

Por exemplo: em vez de colocar sua competente equipe de repórteres no ar, programas como o "Aqui na Band" preferem ouvir "pitaqueiros" e discutir a pandemia de forma rasa —quando não leviana.

Por outro lado a TV fez um golaço aos domingos, com seriados japoneses históricos, o que elevou sua audiência nesse concorrido dia da semana.

Ainda assim seu maior ativo é o jornalismo.

Algo que, com exceção da Globo, nenhuma outra TV aberta ou rádio chega perto: jornalismo vistoso, confiável e em muitos momentos até brilhante.

"Brasil Urgente" (com ressalvas), "Jornal da Band", BandNewsTV e BandNewsFM vêm prestando um imenso serviço à população.

Na crise causada pelo coronavírus, a emissora da família Saad tem dado quase sempre uma aula de jornalismo responsável e informação correta.

Inclusive, quando necessário, desagradando aos poderosos. É isso que se espera de uma concessão pública responsável.

RedeTV

Como foi dito nos primeiros parágrafos deste texto, o total de TVs ligadas no país explodiu por causa da quarentena.

Com isso a RedeTV também está se beneficiando, embora seja a que está em pior situação entre as TVs abertas no momento (exceção da TV Gazeta, claro).

Primeiro porque a RedeTV sempre foi a mais dependente de todas da venda de horários para terceiros (igrejas, caça-níqueis etc).

Segundo porque acabou de investir recentemente na transmissão de torneios de futebol internacionais, em parceria com a empresa Dazn.

Tinha tudo para dar certo. Campeonatos como o italiano, mexicano e turco estavam se tornando um alento de público para uma programação tão recortada e interrompida por "locatários" de grade.

Mas, veio a pandemia, e ela interrompeu esses campeonatos. Foram-se com eles a até então acertada estratégia da emissora.

Do ponto de vista de ibope, para seus padrões, pode-se dizer que a estreia do "Alerta Nacional", com Sikêra Jr., até que foi uma boa jogada para a emissora de Osasco.

Porém, do ponto de vista de conteúdo, o "Alerta Nacional" chega a ser constrangedor e está longe de se tornar um atrativo para anunciantes.

Falando em anunciante, esse é outro problema grave para a emissora: com a pandemia e a paralisação do comércio, os anunciantes —especialmente os do varejo, os chamados "merchans"— desapareceram.

Outro problema da emissora é a absoluta falta de acervo digno de reprises.

Também não ajuda em nada a falta de sensibilidade e governismo desabrido de um de seus donos, Marcelo de Carvalho —que é ótimo em marketing, engenheiro químico de formação, mas opina sobre quarentena como se fosse médico especialista em saúde pública.

Se a pandemia se estender muito tempo (batam na madeira de novo!), a programação e o futuro da RedeTV correm sério risco.

E, dependendo da duração, não só ela, mas todas as TVs.

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