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Nova série da Globo exalta força da educação em meio a polarização política

Nova série da Globo mostra esforço de professores para ajudarem jovens e adultos no ensino noturno - Globo/Maurício Fidalgo
Nova série da Globo mostra esforço de professores para ajudarem jovens e adultos no ensino noturno Imagem: Globo/Maurício Fidalgo

Guilherme Machado

Do UOL, em São Paulo

08/10/2019 04h00

Em São Paulo, na região de Pinheiros, um colégio quase em ruínas recebe novos alunos. A construção, que já abrigou a Escola do Jockey de São Paulo e o Colégio Equipe, está desativada, mas teve parte dos andares restaurada e ganhou até pichações novas. Em uma sala, lê-se: "Marielle, presente!". "A gente colocou uns 'Ele Não' também", brinca Joana Jabace, diretora artística da nova série da Globo, Segunda Chamada, que estreia hoje, às 23h02.

O espaço é o principal cenário do seriado assinado por Carla Faour e Julia Spadaccini, que estreiam como autoras titulares. O ambiente, segundo a diretora, permite uma espécie de trabalho documental, aproximando atores e produção da realidade que o seriado busca retratar.

E é uma realidade bastante complexa: a de jovens e adultos que, não tendo tido a oportunidade de estudar no tempo devido, se dedicam hoje à EJA (Educação de Jovens e Adultos) no período noturno na fictícia Escola Estadual Carolina Maria de Jesus.

Apelidado nos bastidores de "Sob Pressão da edução", uma referência ao tom realista da trama que retrata a rotina de um hospital público, o seriado mostra as dificuldades desses alunos de se dedicarem aos estudos, enfrentando uma série de preconceitos e adversidades —em grande parte causadas pela falta de investimento no ensino público.

A fictícia Escola Estadual Carolina Maria de Jesus, localizada em um colégio desativado de São Paulo, e que serve de cenário para a nova série da Globo - Globo/Mauricio Fidalgo
A fictícia Escola Estadual Carolina Maria de Jesus, localizada em um colégio desativado de São Paulo, e que serve de cenário para a nova série da Globo
Imagem: Globo/Mauricio Fidalgo
"A Globo queria uma série sobre educação. Começamos a pensar que recorte a gente faria dentro desse universo, que é gigante, e optamos pelo patinho feio da educação, porque recebe menos verbas e é onde os professores são mais sacrificados", relata Carla, uma das autoras, sobre a origem do projeto.

"É um universo de conflitos agudos. Achamos interessante jogar luz nessa camada mais vulnerável, mostrando que os professores se assemelhavam aos alunos no sentido do cansaço, da exaustão, dos conflitos, da superação. Tinha uma união de professores e alunos se dando força para chegar até o final da noite", complementa Júlia.

O fio condutor da série é Lúcia, vivida por Débora Bloch, uma professora de português que sofre com a tragédia de perder o filho. Para tentar se recuperar, ela retorna às salas de aula e faz de tudo para se dedicar integralmente aos alunos, auxiliando em problemas que vão além da escola.

Como preparação, a atriz compareceu a alguns cursos de EJA, conversou com professores e alunos. "Foi muito importante e marcante ter ido às EJAs, assistido a essas aulas, conhecido essas professoras e esses alunos. É uma realidade muito dura, e a gente se acostumou a normalizar que as pessoas vivam dessa maneira tão precária, tão desassistida pelo poder público", afirma Débora.

Paulo Gorgulho, que retorna à Globo após 16 anos, conta que tem uma relação pessoal com o tema. "Foi uma feliz e grande coincidência, porque eu já dei aula na EJA muito tempo. Minha mulher é professora até hoje e dirige um instituto de educação que é dentro de uma comunidade. Lá tem uma unidade de EJA."

Polarização

Paulo Gorgulho e Débora Bloch vivem Jaci e Lúcia em Segunda Chamada - Globo/Maurício Fidalgo
Paulo Gorgulho e Débora Bloch vivem Jaci e Lúcia em Segunda Chamada
Imagem: Globo/Maurício Fidalgo
Segunda Chamada chega em um momento conturbado para a educação brasileira, que se vê no centro de várias polêmicas, como cortes de investimento do governo e bolsas de pesquisa nas universidades.

Outro ponto delicado foi o posicionamento do ministro da Educação, Abraham Weintraub, que incentivou estudantes a filmarem professores em sala de aula, dizendo que analisaria o conteúdo compartilhado nas redes sociais em busca de irregularidades.

"Acho isso um absurdo, um disparate, uma distopia. É reflexo da ignorância sobre o que é uma sala de aula, sobre qual é o papel do professor e qual é a relação que ele tem com seus alunos. Sala de aula é lugar de debate, aprendizado, de incentivar pensamento crítico. Não é um lugar de repressão nem de autoritarismo", critica Débora.

Ela ressalta que a série foi criada antes do atual momento político. Mas fica claro que são abordados uma variedade de temas em alta hoje, como machismo, ataques a direitos da comunidade LGBT, violência doméstica e criminalidade.

"O que mais me assusta é que a gente está aplaudindo atitudes de desumanidade, de violência. Contra os índios, contra os pobres, contra os negros, os moradores das favelas, os LGBTs, contra os brasileiros. Somos todos brasileiros. Acho muito assustador que a gente esteja batendo palma para a desumanidade", afirma a atriz.

Já Paulo Gorgulho, que lecionou utilizando o método de Paulo Freire, educador particularmente atacado recentemente, diz que é importante falar da educação "agora e sempre".

Linn da Quebrada é Natasha em Segunda Chamada - Globo/Maurício Fidalgo
Linn da Quebrada é Natasha em Segunda Chamada
Imagem: Globo/Maurício Fidalgo
"A educação é importante sempre. Sem a educação não se forma consciência, espírito de nação, não se fortalece a cultura do povo. Quem não pensa não cria identidade. A educação tem que ser tratada sempre com muito carinho e como prioridade."

Para as autoras, uma das questões mais inspiradoras de se ver entre alunos da EJA, é a dedicação e como eles priorizam a educação. "Os alunos têm consciência de que a escola é a única forma de melhorar uma realidade. Não tem outra", destaca Carla Faour.

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