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Emicida critica burguesia na frente de Luciano Huck: 'Elas só têm dinheiro'

Emicida criticou a burguesia e analisou a falta de oportunidades para população negra - Reprodução/TV UOL
Emicida criticou a burguesia e analisou a falta de oportunidades para população negra Imagem: Reprodução/TV UOL

Do UOL, em São Paulo

09/06/2021 10h55Atualizada em 09/06/2021 18h18

O rapper Emicida criticou a burguesia brasileira ao conversar com o apresentador global Luciano Huck durante o "Papo de Segunda" de ontem, no GNT.

Emicida explicou o quanto o sistema capitalista é danoso e desigual, atingindo principalmente a população negra no Brasil — no estrato dos 10% de pessoas com menor rendimento per capita, 75,2% são negros, e 23,7%, brancos, segundo o relatório "Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil" do IBGE lançado em 2019.

Tenho minhas dúvidas quando escuto Luciano falar desse convite ao 1% e da predisposição desse 1% participar da redistribuição de riqueza porque não faltaram conjunturas melhores para que esse 1% participasse da discussão e tomasse as rédeas. Inclusive não uso a palavra 'elite' porque significa o que uma categoria tem de melhor. Se referir a pessoas que têm dinheiro somente como a elite da categoria humana parece que a pirâmide da humanidade é definida pelo acúmulo.

Antes, Luciano Huck — que desde 2018 ensaia uma candidatura na centro-direita para a presidência — havia falado sobre a distribuição de renda.

O apresentador disse desconhecer "qualquer sistema que tenha tirado mais gente da pobreza que o capitalismo" e completou: "Não tô falando de tirar do rico e dar pro pobre, essa discussão é muito limitada. Você tem que construir uma sociedade onde a educação, antes de tudo, seja igualitária".

A tese de que o 1% mais rico da população tem que atuar na redistribuição já era apontada por Huck no ano passado.

Emicida disse que a palavra correta para definir o extrato com mais dinheiro é burguesia.

A diferença dessas pessoas para outras é o dinheiro. E várias dessas só têm o dinheiro.

'Para cada Emicida que chegou até aqui, quantos vão para a vala?'

Emicida - Julia Rodrigues/Divulgação - Julia Rodrigues/Divulgação
Retrato do rapper Emicida
Imagem: Julia Rodrigues/Divulgação

O rapper usou seu exemplo, de pessoa que veio da pobreza na periferia de São Paulo, abriu sua própria gravadora com o irmão Evandro Fióti — e que hoje também lança roupas, livros e agência outros artistas —, para explicar que ele é uma exceção.

A presença de negros em espaço de poder é menor — a diferença salarial, por exemplo, entre brancos e negros era de 45%, de acordo com a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) divulgada no início do ano passado.

'Ah, mas você é um cara bem sucedido, nasceu num barraco de madeira e hoje tá confortável'. A imagem que me vem na cabeça é: você no penhasco contemplando uma imagem e alguém te empurra. Você se quebra todo, se agarra num cipó, se salva depois de tempos e com uma perna quebrada, perdeu a memória, uma série de desgraças, mas você consegue botar a mão no penhasco de novo. Aí a pessoa que tem empurrou diz: tá vendo, fiz isso para mostrar seu potencial.

Além da falta de oportunidades no mercado de trabalho, as condições de vida e segurança são diferentes dentro da sociedade: em 2020, sete em cada 10 brasileiros que moram em casas com algum tipo de inadequação são pretos ou pardos, segundo o levantamento Síntese de Indicadores Sociais, do IBGE.

Mortos pela polícia e por crime de feminicídio são, na maioria, negros: pretos e pardos são 75% no primeiro caso; já as vítimas de feminicídio, 61% são mulheres negras.

Emicida reforçou que é uma exceção dentro de um país que as estatísticas mostram as barreiras sociais para quem é negro — mesmo sendo 55% da população brasileira.

Essa gratidão que as pessoas tentam impor para pessoas como eu, não houve um cadastro que eu assinasse e dissesse que escolhi esse sistema econômico e queria participar. Nasci dentro dele e tive que me debruçar. E infelizmente, para cada Emicida que chegou até aqui, quantos vão para a vala? Sacou, mano?

Ontem, a jovem negra e designer de interiores Kathlen Romeu, de 24 anos, foi atingida por uma bala perdida em uma ação policial na comunidade do Lins, localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro. Kathlen estava grávida.