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"Bom Sucesso" dá exemplo sobre como abordar tema da consciência negra na TV

Ramon (David Júnior) e Paloma (Grazi Massafera) em cena de "Bom Sucesso" - Reprodução/TV Globo
Ramon (David Júnior) e Paloma (Grazi Massafera) em cena de "Bom Sucesso" Imagem: Reprodução/TV Globo
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

24/11/2019 05h01

O Dia da Consciência Negra, mais uma vez, ajudou a colocar em pauta o tema do racismo e sugestões sobre como enfrentá-lo. Mas, como lembrou a atriz Erika Januza, a discussão precisa ir além da efeméride.

"O 20 de novembro é uma data para se lembrar, um marco importante na luta negra, mas penso que não deve ser simplesmente 'vamos aqui falar sobre isso no 20 de novembro'. A questão racial, como a questão do preconceito em geral, tem que ser tratada todos os dias e não só pelos negros, mas por todos aqueles que são contra o racismo e o preconceito", disse ela.

Pensando na televisão, em particular na teledramaturgia, esta reflexão da atriz é muito importante. É verdade que novelas e séries têm tratado do racismo, com erros e acertos, há muitos anos. O tema está presente, de fato, nas mais variadas produções. Mas a denúncia do racismo basta?

Como observa o ator e humorista Paulo Vieira, não basta. "A criança branca acha que não existe negro no mundo, porque ela só vê o mundo branco na televisão, e a criança negra acha que não há espaço para ela porque todo mundo bem-sucedido na televisão é branco. Não existe outra maneira de ampliar esse debate da representatividade senão as TVs criarem outras celebridades negras, escalarem negros para o papel principal, para galã, para mocinha, para apresentar programas", diz ele.

Um exemplo muito positivo, na minha opinião, do que diz Paulo Vieira pode ser visto na novela "Bom Sucesso", da Globo. Dos 51 personagens da trama, 17 são vividos por atores negros ou pardos. Isso representa um terço do elenco, um índice ainda inferior à realidade da população brasileira, mas muito acima do que se vê em outras produções.

Há negros em diferentes posições na trama - um dos protagonistas (Ramon), um médico (Mauri), a diretora comercial de uma editora de livros (Glaucia), a diretora de uma escola (Elomar), além, claro, dos vários moradores que formam o núcleo do bairro de Bonsucesso, um subúrbio carioca.

Mais importante, creio, é a forma como os autores, Rosane Svartman e Paulo Halm, enfrentam o assunto sem condescendência. A negritude dos personagens é uma realidade, não um assunto. Desta forma, por exemplo, a protagonista, a costureira Paloma (Grazi Massafera), se vê dividida entre um homem negro de origem humilde, Ramon (David Junior), e um branco e rico, Marcos (Rômulo Estrela). Ambos têm qualidades e defeitos.

Outra abordagem interessante ocorre com o personagem Waguinho (Lucas Leto). O jovem se envolveu com criminosos e acabou participando de um assalto à casa de Paloma. Arrependeu-se e está tentando se regenerar, com a ajuda do padre e de uma professora. Mas ainda provoca desconfiança e medo de vários personagens, negros como ele.

Por meio do personagem Luan (Igor Fernandez), que é poeta e participa de "batalhas de slam" (concursos de poesia), os autores tem falado da realidade dos jovens da periferia, o que inclui racismo, preconceitos e dificuldades de acesso ao mercado de trabalho.

Dois personagens são os vilões da história: o advogado Diogo (Armando Babaioff) e a secretária Gisele (Sheron Menezzes). Ambos são ambiciosos e querem subir na vida passando por cima das pessoas e das regras. Eram amantes e enganaram a editora Nana (Fabiula Nascimento). Ele é branco e ela, negra - e a questão racial, mais uma vez, não tem relação alguma com as atitudes que tomam.

Com as limitações que o horário das 19h30 impõe, "Bom Sucesso" apresenta um retrato diversificado da sociedade brasileira, tanto do ponto de vista socioeconômico quanto racial, explicita as desigualdades, mas sem passar a mão na cabeça de ninguém.

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